
(Padre Carlos)
Há momentos em que a realidade brasileira abandona qualquer pudor e decide flertar com o teatro do absurdo. O depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal é um desses episódios em que o país, cansado, se pergunta se deve rir, chorar ou simplesmente pedir um uísque importado — de preferência o mesmo servido à beira da piscina da mansão onde a memória parece evaporar mais rápido que o gelo no copo.
O dono do Banco Master, acusado de operar carteiras de crédito que somam módicos R$ 12,2 bilhões, diz não saber quais créditos eram bons, quais eram ruins, quais existiam e quais talvez tenham brotado por geração espontânea. Não sabia. Não lembra. Não dominava. Não aprofundou. É o banqueiro da ignorância seletiva, um novo personagem do capitalismo tropical: administra bilhões, mas não entende os detalhes; comanda instituições financeiras, mas não distingue crédito podre de crédito saudável; circula entre políticos, mas não recorda quem frequentava sua casa.
A pergunta feita a Vorcaro, convenhamos, é quase infantil. Esperar que alguém produza prova contra si mesmo é desconhecer o básico do direito e da natureza humana. Ninguém facilita a própria condenação. Ninguém confessa crimes com a mesma naturalidade com que escolhe o rótulo do uísque. A ingenuidade não está na resposta do banqueiro — esta é previsível —, mas no ritual que finge surpresa diante dela.
O que realmente importa não é o que Vorcaro diz não saber, mas o que o Estado precisa descobrir. Cabe ao Banco Central, ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e aos técnicos do governo separar ficção de contabilidade, narrativa de balanço, encenação de fraude. Cabe às instituições proteger o sistema financeiro nacional, os correntistas, o Fundo Garantidor, os brasileiros que não têm mansão, nem piscina, nem tempo para esquecer seletivamente.
Porque há algo profundamente indecente na imagem que se forma: enquanto investigações apontam CPFs espalhados pelo país, associações de servidores do Rio de Janeiro sem lastro financeiro e créditos que não encontram movimentação compatível, o protagonista dessa história desfruta do conforto absoluto. O luxo, nesse caso, não é apenas material; é também moral. O luxo de tratar a justiça com desdém educado, de responder com frases polidas e vazias, de ironizar o país com a serenidade de quem sabe que o tempo, muitas vezes, trabalha a favor dos poderosos.
Vorcaro diz que a operação “não existiu”. Não houve pagamento. Não houve venda. Não houve crime. Curioso: não existiu, mas inflou balanço; não existiu, mas virou carteira bilionária; não existiu, mas mobilizou Banco Central, STF, PF e MPF. É o milagre financeiro da inexistência produtiva — nada aconteceu, mas aconteceu em escala suficiente para ameaçar a estabilidade do sistema.
O mais irônico é que, nesse roteiro requentado, todos parecem saber exatamente o que dizer. O banqueiro não sabia. O parceiro não entregou documentos. A consultoria atrasou. A transação foi desfeita. Tudo muito limpo, tudo muito técnico, tudo muito elegante. Sujo mesmo é apenas o impacto social, a desconfiança pública, o sentimento de que existe um Brasil para quem presta contas e outro para quem apenas presta depoimentos.
Enquanto isso, o cidadão comum assiste. Assiste ao sarcasmo involuntário de um sistema onde bilhões evaporam em “contas escrow”, onde títulos podres circulam como se fossem ativos respeitáveis, onde a memória falha sempre no ponto exato em que começa a responsabilidade.
O problema não é Vorcaro dizer que não sabe. Isso era esperado. O problema é o país se acostumar a aceitar que quem não sabe, não lembra e não domina continue gozando da impunidade com vista para a piscina. A justiça brasileira não pode ser apenas um cenário distante observado da varanda. Ou ela atravessa o portão das mansões, ou continuará sendo motivo de ironia amarga — fina, elegante e requentada — para um povo que já perdeu a paciência com esse teatro de esquecimentos convenientes.




