Política e Resenha

ARTIGO – O Vento que Guarda o que Fomos

 

 

Padre Carlos

 

O vento sempre soube mais de nós do que imaginávamos.
E talvez seja por isso que, quando ele passa, não pede licença: entra direto na memória, desalinha o presente e nos obriga a sentir.

Em Itapuã — ou quem sabe na Pituba dos anos cinquenta e sessenta, quando ainda era colônia de pescadores, jangadas alinhadas na areia como velas do Mucuripe — o vento não era apenas um fenômeno climático da Bahia. Era linguagem. Era mensageiro antigo. Corria pelas “paia” do coqueiro como quem folheia um álbum de fotografias invisíveis, arrancando das folhas um estalo seco, som de lembrança viva. Cada ruído era um aviso: o tempo ainda cabia numa tarde inteira.

Ali, o mar não fazia pose. Não era paisagem para cartão-postal nem fundo para selfie. O mar era testemunha. Encrespado de leve pelo vento, sem violência, como quem só quer lembrar que também sente. Na beira do Chega Nego, ele guardava silêncios, risos contidos, promessas ditas quase em segredo. Guardava aquele canto simples, despretensioso, que não buscava sucesso, nem aplauso, nem gravação — queria apenas existir no ouvido de quem amava. E isso bastava.

Quando o vento assobiava no telhado, não era ruído incômodo. Era convite. Chamado discreto para espiar a lua. A lua, cúmplice antiga, via tudo. Sempre viu. Mas nunca delatou ninguém. Limitava-se a iluminar corpos jovens, mãos que se encontravam sem pressa, como se alguém tivesse suspendido o relógio por decreto afetivo. Naquele tempo, amar não competia com notificações, nem com urgências fabricadas. Amar era suficiente.

Hoje, o vento ainda passa. Passa pelos prédios altos, pelas avenidas asfaltadas, pelas janelas seladas por ar-condicionado e pressa. Mas já não encontra o mesmo cenário. Nem o mesmo amor. Ele passa por mim — e aqui falo baixo, quase num sussurro ao leitor — e percebe o que eu já sei: estou sozinho. E, de um modo estranho e dolorosamente lúcido, sei que tu também estás. Tristes, talvez. Mas lembrando.

Porque há lembranças que não envelhecem. Elas apenas se escondem. Ficam à espera de um vento específico para reaparecer.

Essa Bahia — Itapuã ou Pituba, pouco importa — não existe mais no mapa urbano. Foi engolida pelo progresso, pela especulação imobiliária, pelos novos nomes, pelas novas urgências e pela lógica de um desenvolvimento que quase sempre esquece as pessoas. Mas ela segue intacta dentro de nós. Vive na memória afetiva, no cheiro de maresia, no som distante de uma canção antiga, no vento que, de repente, encrespa o pensamento, bagunça a alma e assanha uma saudade que jurávamos ter domesticado.

Há um ponto em que o texto muda de direção, como muda a vida quando percebemos que não perdemos apenas lugares, mas tempos inteiros. Perdemos o direito à lentidão, à contemplação, à escuta. Perdemos a inocência de achar que o amor seria eterno só porque era verdadeiro. E talvez seja por isso que dói: não foi mentira o que passou. Foi real. E exatamente por isso, irrepetível.

Então pergunto ao vento, com a mesma ingenuidade de antes — sabendo que ele talvez não responda, mas entendendo que perguntar já é uma forma de resistência, de memória, de verdade:

— Vento, diga por favor… aonde se escondeu o meu amor?

Ele não responde com palavras. O vento nunca precisou delas. Responde passando. E, ao passar, me devolve tudo: a Bahia que fui, o amor que houve, a saudade que ainda sou.