
Padre Carlos
Ontem fiz uma análise política que causou incômodo em alguns círculos e curiosidade em outros: Angelo Coronel não precisa firmar acordo com ACM Neto para se tornar viável eleitoralmente. Essa afirmação, longe de ser provocação gratuita, nasce da observação fria da engenharia política que sustenta a política brasileira — e, de modo muito particular, a política da Bahia.
O apoio da oposição pode cair no colo de Coronel “de graça”. Não por generosidade, mas por cálculo. A oposição adoraria retirar um cacique petista do jogo e substituí-lo por um nome de centro, institucional, com trânsito livre e capacidade real de diálogo. A política baiana sempre valorizou pontes, não muros. E Angelo Coronel é uma ponte. Não por oportunismo circunstancial, mas por trajetória política, história institucional e perfil agregador.
Ignorar esse dado é desconhecer como se vencem eleições em cenários complexos. A Bahia não é território de aventuras ideológicas puras; é solo de arranjos, pactos silenciosos, equilíbrio de forças e leitura fina do eleitorado. Coronel compreende isso. Sempre compreendeu.
Há ainda um elemento central que muitos fingem não ver: o PSD. Um partido com prefeitos, capilaridade, base municipal sólida e presença real no interior do estado. Se Otto Alencar assim determinar, esses prefeitos marchariam com Angelo Coronel sem romper com Jerônimo Rodrigues e sem abandonar Lula. Essa é a natureza do PSD: pragmático, federativo, atento às realidades locais e às alianças possíveis. Não se trata de traição, mas de sobrevivência política — e de inteligência eleitoral.
Nesse contexto, ganha relevância o encontro ocorrido no final da última semana, que movimentou os bastidores da política baiana. Em um evento reservado, no extremo-sul da Bahia, com a presença de amigos em comum, estiveram o senador Angelo Coronel e o deputado federal Diego Coronel ao lado do ex-prefeito de Salvador ACM Neto e do atual prefeito Bruno Reis. Segundo apuração do Bahia Notícias, o encontro não foi marcado com o objetivo formal de discutir alianças, mas o tema eleitoral surgiu, ainda que em tom de brincadeira — como quase sempre acontece quando políticos experientes dividem a mesma mesa.
Aqui está o ponto-chave: Angelo Coronel não declarará apoio aberto a ACM Neto. E nem poderia. Fazer isso significaria se indispor com o eleitorado de Lula, com o governo Jerônimo e, sobretudo, com o presidente de seu partido, Otto Alencar. Mas isso não impede o flerte calculado, o gesto ambíguo, o aceno simbólico capaz de atrair votos da direita moderada sem romper com a base governista.
Esse movimento não é novo. É clássico. É política em estado puro. Coronel busca ampliar seu arco de alianças, ocupar o centro do tabuleiro, dialogar com todos e não se fechar em trincheiras ideológicas. Em tempos de radicalização, o centro volta a ser um ativo poderoso.
A tentativa de pintar esse gesto como traição ou incoerência revela mais sobre quem acusa do que sobre quem age. A política real não se move por paixões, mas por interesses, correlação de forças, timing e leitura do cenário. Angelo Coronel sabe disso. A oposição sabe disso. O governo sabe disso.
No fim das contas, a pergunta não é se Coronel flerta ou não com a direita. A pergunta correta é: quem, hoje, consegue transitar entre campos opostos sem romper pontes? Na Bahia, poucos têm esse capital político. E é exatamente por isso que Angelo Coronel incomoda tanto os extremos — porque ele não pertence a nenhum deles, mas dialoga com todos.




