Política e Resenha

Caiado e o Jogo das Cadeiras Partidárias: Quando a Ambição Presidencial Esbarra na Fragilidade Institucional


A notícia da saída de Ronaldo Caiado do União Brasil para viabilizar sua candidatura presidencial não deveria surpreender ninguém minimamente familiarizado com a política brasileira. Afinal, no Brasil, partidos políticos não são organizações ideológicas consolidadas, mas sim plataformas de conveniência — trampolins temporários que políticos utilizam conforme a direção dos ventos eleitorais.
O que chama atenção, contudo, não é apenas mais um episódio da crônica dança das cadeiras partidárias, mas o que ele revela sobre as contradições de um sistema político profundamente fragilizado e sobre as ambições de um governador que, embora competente em sua administração estadual, pode estar prestes a cometer um erro de cálculo significativo.
A Federação que Nunca Foi
Caiado justifica sua saída alegando insatisfação com a federação União Progressista, formada entre União Brasil e Progressistas. A federação partidária, mecanismo criado para forçar alguma coerência programática em nosso caótico sistema multipartidário, deveria representar um compromisso de longo prazo entre legendas com afinidades ideológicas. Na prática, como demonstra este episódio, não passa de mais uma engenharia institucional que sucumbe diante dos interesses individuais.
O que estava em jogo? Provavelmente divergências sobre alianças, tempo de televisão, recursos do fundo partidário e, principalmente, o apoio a diferentes projetos presidenciais. Quando Caiado afirma entender “a dificuldade do partido”, está, na verdade, reconhecendo que sua ambição presidencial não encontrou respaldo suficiente dentro da própria legenda. Em outras palavras: o União Brasil preferiu outros caminhos.
A Candidatura Improvável
Mas será realista a pretensão presidencial de Caiado? Com todo o respeito à sua gestão em Goiás — que, reconheça-se, apresenta avanços em áreas como segurança pública e infraestrutura —, é preciso questionar se há espaço real para sua candidatura no cenário nacional atual.
O governador goiano possui baixíssimo reconhecimento fora de seu estado e da classe política. Não possui uma base nacional consolidada, não construiu alianças estratégicas significativas fora do Centro-Oeste e, agora, parte em busca de um partido que o acolha às vésperas do início oficial da campanha. Isso não é construir uma candidatura presidencial; é improvisar uma.
Além disso, o campo político que Caiado pretende ocupar — o centro-direita com pretensões de terceira via — está absolutamente saturado. Entre bolsonaristas, lulistas e eventuais candidatos de centro, onde exatamente Caiado se posicionaria? Qual seria sua proposta distintiva capaz de mobilizar eleitores nacionalmente?
O Custo da Ambição Desmedida
Há um risco real de que esta aventura presidencial custe caro a Caiado. Ao abandonar seu partido em meio a uma federação, ele queima pontes políticas importantes. Ao lançar-se numa corrida presidencial sem estrutura adequada, arrisca-se a uma derrota humilhante que pode manchar sua reputação construída em Goiás.
Governadores bem-sucedidos que se lançaram precipitadamente à Presidência sem base nacional consistente costumam amargar resultados pífios. A história eleitoral brasileira está repleta desses exemplos. Caiado, aos 75 anos e com uma carreira política extensa, deveria saber disso.
O Reflexo de um Sistema Doente
Mas o caso Caiado é sintomático de algo maior: a absoluta falta de institucionalidade partidária no Brasil. Partidos não passam de siglas registradas no TSE, sem identidade programática clara, sem militância ativa, sem compromisso ideológico. São clubes de políticos profissionais que se reagrupam conforme conveniências eleitorais.
Como esperar que o eleitor leve a sério o sistema partidário quando os próprios políticos o tratam com tamanha leviandade? Como cobrar fidelidade ideológica do cidadão quando lideranças trocam de legenda como quem troca de roupa?
Conclusão: Realismo ou Teimosia?
Ronaldo Caiado tem todo o direito de almejar a Presidência da República. A democracia se fortalece com a pluralidade de candidaturas. Porém, entre o direito de candidatar-se e a viabilidade real de uma candidatura, há um abismo que precisa ser reconhecido.
O governador goiano poderia consolidar seu legado concluindo bem seu mandato, fortalecendo sua base regional e, quem sabe, preparando o terreno para uma candidatura presidencial futura mais estruturada. Ou poderia aceitar um papel de liderança nacional sem necessariamente ser candidato — há outras formas de influenciar os rumos do país.
Insistir numa candidatura improvisada, em busca de um partido de última hora, soa menos como estratégia política e mais como teimosia. E a teimosia, na política como na vida, raramente termina bem.
O tempo dirá se Caiado está demonstrando audácia visionária ou apenas alimentando uma ilusão. Por ora, sua saída do União Brasil adiciona mais um capítulo à longa e melancólica história da fragilidade partidária brasileira — onde siglas são descartáveis e projetos de poder pessoal prevalecem sobre construções institucionais duradouras.