
(Padre Carlos)
A família Bolsonaro age como se o Brasil fosse uma extensão de seu patrimônio político, um território hereditário a ser ocupado por filhos, parentes e aliados, independentemente da história, da identidade e da vontade dos povos locais. A pré-candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado Federal por Santa Catarina é mais do que uma manobra eleitoral oportunista: é uma afronta direta à soberania política dos catarinenses e à inteligência do eleitor brasileiro.
Santa Catarina não é terra sem voz, nem estado órfão de lideranças. Ao contrário, é um dos estados mais politizados do país, com tradição democrática, quadros técnicos respeitados e representantes históricos que conhecem, vivem e defendem os interesses locais. Diante disso, a pergunta se impõe com força: quem é Carlos Bolsonaro para se arvorar porta-voz de um povo ao qual não pertence, não construiu trajetória e não compartilha raízes?
A tentativa de impor um “forasteiro político” revela a lógica patrimonialista que marca o bolsonarismo desde sua origem. O projeto não é nacional, muito menos republicano. É familiar. O sobrenome vale mais que a biografia, a lealdade cega vale mais que a competência, e a ocupação de cargos parece obedecer a uma lógica de capitania hereditária. O Senado, instituição central da democracia brasileira, não pode ser tratado como extensão de um clã.
Os efeitos desse movimento já são visíveis e concretos. A entrada de Carlos Bolsonaro na disputa ao Senado provocou um racha político em Santa Catarina, desorganizando a base do governador Jorginho Mello (PL) e redesenhando o xadrez eleitoral de 2026. A articulação do Centrão contra o PL e a saída do MDB da base governista mostram que a imposição de um nome rejeitado localmente cobra seu preço. Política não se faz no grito, nem na imposição; faz-se com diálogo, respeito e enraizamento social.
Como revelou a colunista Letícia Casado, do UOL, a crise expõe a fragilidade de uma coalizão sustentada mais por conveniência ideológica do que por projeto de estado. Ao tentar atender aos interesses da família Bolsonaro, o PL catarinense compromete alianças estratégicas e enfraquece a governabilidade. O custo político é alto e tende a aumentar à medida que o eleitor percebe a manobra.
Há, ainda, um aspecto simbólico que não pode ser ignorado. O Senado Federal representa os estados da federação, não projetos pessoais ou dinastias políticas. Transformar Santa Catarina em trampolim para ambições familiares é desrespeitar o pacto federativo, a representatividade política e a própria democracia brasileira. É tratar o eleitor como figurante de um roteiro já escrito no Rio de Janeiro ou em Brasília.
O Brasil precisa romper com essa cultura de apropriação do público pelo privado, do estado pela família, da política pelo sobrenome. Santa Catarina tem filhos ilustres, lideranças preparadas e legitimadas pelo voto e pela história. Não precisa importar representantes. Precisa, sim, afirmar sua autonomia política e dizer, com clareza, que o Senado não é herança e o Brasil não tem dono.
Palavras-chave integradas ao debate público e à pesquisa online: família Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Senado Federal, Santa Catarina, crise política, racha político, eleições 2026, Centrão, PL, MDB, Jorginho Mello, democracia brasileira, representatividade política, pacto federativo, política brasileira.




