
(Padre Carlos)
Há documentários que chegam tarde. Outros chegam cedo demais. Libelu – Abaixo a Ditadura, vencedor da mostra É Tudo Verdade, chega exatamente na hora certa. Num país que flerta perigosamente com a amnésia histórica, revisitar a experiência da Liberdade e Luta (Libelu) não é exercício de nostalgia, mas um gesto político de memória, crítica e provocação intelectual.
A escolha de Mino Carta, o jornalista “neutro” por excelência, para abrir o filme já é um comentário irônico por si só. Nada mais apropriado para falar de um movimento que nunca acreditou na neutralidade como virtude, mas sempre a tratou como disfarce ideológico. A Libelu foi, na segunda metade dos anos 1970, uma ruptura consciente com o movimento estudantil moldado pela guerrilha, pelo stalinismo e pelo maoísmo. Rompeu politicamente, rompeu esteticamente e, sobretudo, rompeu com o medo.
O cenário do documentário é simbólico ao extremo: o mezanino da FAU-USP, espaço onde aqueles jovens foram tribunos inflamados contra a ditadura militar, hoje abriga homens maduros revisitando suas próprias contradições. A montagem cria uma tensão poderosa entre passado e presente, imagens de cartazes, assembleias e enfrentamentos se chocam com rostos marcados pelo tempo e pela história. O filme não apenas narra: ele interpela.
Como lembra Diógenes Muniz, os atos estudantis de 1977 foram o ensaio geral das greves operárias do ABC. Os estudantes atuaram como batedores da insurreição operária que, entre 1978 e 1980, feriu mortalmente a ditadura. E a Libelu estava na linha de frente. A ousadia de retomar o grito “Abaixo a Ditadura”, quando grande parte da esquerda temia a repressão, foi um divisor de águas. Não se tratava de bravata, mas de leitura política: os tempos não eram 1968, e a estratégia também não poderia ser.
A influência da OSI (Organização Socialista Internacionalista) foi decisiva nesse ponto. Ao criticar o foquismo guerrilheiro e a política isolada das massas, a Libelu apostou na aliança operário-estudantil e na ação coletiva como motor da transformação social. Derrubar a ditadura não seria tarefa de iluminados armados, mas de um movimento de massas consciente e organizado. Essa foi, talvez, sua maior virtude — e também uma de suas maiores ilusões.
A Libelu também foi uma rebelião cultural. Enquanto correntes stalinistas e maoístas demonizavam o rock, a guitarra elétrica, o soul e o funk como “imperialismo cultural”, os libelus liam Trótski, citavam Breton, dialogavam com a Tropicália e defendiam a liberdade radical da arte. Não por acaso, Caetano Veloso reconheceu que foram eles que “habilitaram” sua imagem junto à esquerda brasileira. Era política, mas também era estética, desejo, invenção.
Comparar a Libelu à Semana de Arte Moderna de 1922 pode soar exagero, como sugere José Arbex, mas talvez a analogia correta seja outra: a Libelu foi para a política o que o tropicalismo foi para a cultura — uma ruptura com a caretice, o nacionalismo obtuso e a disciplina autoritária travestida de virtude revolucionária. “Toda licença em arte”, diziam Trótski e Breton. A Libelu tentou aplicar essa máxima também à política.
Mas a história raramente é generosa com seus ousados. Ao defender o boicote às eleições de 1978, o voto nulo e a construção de um Partido Operário Independente, a Libelu entrou em rota de colisão não apenas com a ditadura, mas com a transição pactuada conduzida por Geisel e Golbery — e aceita, com entusiasmo constrangedor, pela maior parte da esquerda. Nesse ponto, a Libelu estava certa. E foi derrotada.
O documentário acerta ao evitar a tentação moralista de julgar trajetórias individuais, mas não escapa de um tom melancólico. Antonio Palocci e Demétrio Magnoli simbolizam, cada um à sua maneira, a migração da rebeldia juvenil para o pragmatismo — ou cinismo — adulto. A leitura do poema de Paulo Leminski, gesto brilhante do diretor, expõe os personagens diante de sua própria memória, como se a poesia cobrasse uma dívida histórica que nunca foi paga.
O problema não é que a revolução permanente tenha fracassado. O problema é que seus protagonistas desistiram de perguntar por que fracassaram. A Libelu desapareceu não apenas por repressão externa, mas por limites internos: sectarismo, incapacidade de dialogar com a juventude negra, dificuldade real de enraizamento no movimento operário e uma leitura esquemática da realidade brasileira. A história mostrou, como sempre, ser mais forte que os modelos abstratos.
Ao integrar-se ao processo que levou ao PT, a Libelu perdeu seu caráter disruptivo. Aquilo que nasceu para confrontar a transição pactuada acabou absorvido por ela. O resultado está aí: uma geração que lutou contra a ditadura e viu seus sonhos desembocarem no neoliberalismo, na institucionalização da esquerda e na erosão de seus próprios ideais.
Ainda assim, reduzir a Libelu a um fracasso seria injusto e intelectualmente preguiçoso. Sua experiência permanece como alerta e inspiração. Mostra que a juventude pode, sim, ser sujeito histórico; que política sem ousadia vira administração da miséria; e que memória é arma contra a repetição dos erros.
Em tempos de crises democráticas, autoritarismos reciclados e uma juventude novamente inquieta, revisitar a Libelu é mais do que olhar para trás. É perguntar, com honestidade brutal: onde erramos, por que erramos e o que ainda pode ser salvo? Essa talvez seja a herança mais valiosa deixada por aqueles jovens que, um dia, ousaram gritar — sem pedir licença — abaixo a ditadura.




