Política e Resenha

ARTIGO – O Amor Antigo em Tempos de Afeto Raso

 

 

Padre Carlos

 

Eu não sei se você vai concordar comigo, mas o amor moderno anda entediante. Não entediante como um domingo chuvoso, propício à preguiça e ao café quente, mas entediante como um silêncio vazio, desses que ecoam dentro da gente. Hoje, confesso a vocês que acompanham meus artigos, tenho até medo de perguntar o que é o amor. Se ele ainda existe. Se ele mudou de nome. Ou se foi apenas diluído nesse tempo apressado, ansioso e excessivamente racional em que tudo precisa ser controlado, medido e calculado.

Escrevo sobre o amor quase todos os dias aqui no Política e Resenha. E talvez seja justamente por isso que ainda não consegui entendê-lo por completo. Ou talvez porque o amor sobre o qual escrevo não seja deste tempo. O meu amor é antigo. Tem cheiro de papel, mancha de tinta velha e espera. É um amor de cinema, desses que atravessam cidades, que correm na chuva, que chegam ofegantes no último segundo antes da porta se fechar. Um amor que escreve cartas quando a ausência dói e liga apenas para ouvir a respiração do outro do outro lado da linha.

O amor moderno, ao contrário, parece disputar quem sente menos. Quem demonstra menos. Quem se importa menos. Virou um jogo silencioso de controle emocional, um tabuleiro invisível onde perder é se entregar. “Eu gosto de você”, mas não digo. “Sinto sua falta”, mas não ligo. “Quero te ver”, mas não me mexo. Querer virou fraqueza. Demonstrar virou risco. Amar virou exposição — e exposição, nesse tempo, é quase um pecado capital.

Vivemos a era do afeto raso, dos relacionamentos líquidos, das conexões rápidas e descartáveis. O medo de sofrer se tornou maior do que a vontade de viver algo verdadeiro. E assim, em nome da autoproteção, sacrificamos a intensidade, a entrega e a beleza do encontro humano. Falamos de liberdade emocional, mas na prática estamos algemados pelo pavor de sentir demais.

Ainda assim, eu continuo acreditando que o amor pode ser diferente. Acredito no valor de se arriscar. Na coragem silenciosa de quem escolhe ficar mesmo com medo. Acredito na delicadeza de cartas escritas à mão, nos gestos simples de dar flores sem motivo, no bilhete esquecido sobre a mesa, no toque que não pede permissão porque já encontrou morada. Acredito nas borboletas no estômago, esse fenômeno tão desacreditado quanto necessário.

O amor verdadeiro nunca foi seguro. Nunca foi previsível. Nunca foi confortável. Ele sempre exigiu salto, confiança e vulnerabilidade. E talvez o grande problema do amor moderno não seja a falta de sentimento, mas o excesso de cálculo. Amamos como quem investe na bolsa: com medo de perder, com receio do risco, com o olho no prejuízo. Mas o amor não aceita planilhas, nem contratos emocionais. Ele pede presença, inteireza e verdade.

Sim, o amor moderno pode ser entediante. Mas eu sigo buscando o amor antigo — aquele que dizem que não existe mais, mas que insiste em sobreviver em pequenos gestos, em pessoas raras, em escolhas diárias. Não vou desistir dele. Porque desistir do amor é desistir do que nos torna humanos. E enquanto houver alguém disposto a sentir, a se expor e a ficar, o amor — esse amor antigo, intenso e imperfeito — continuará existindo, mesmo em tempos que fingem não precisar dele.