
Por Padre Carlos
Há festas que passam. E há festas que ficam. Ficam na pele, na memória, no jeito como uma cidade passa a se reconhecer depois delas. O Arraiá da Conquista não foi apenas um São João grandioso — foi um marco simbólico e político, um acontecimento que reorganizou a autoestima de Vitória da Conquista e a reposicionou no mapa cultural da Bahia.
Enquanto boa parte do Brasil ainda se preparava para pular carnaval, Conquista já afina o triângulo, estica as bandeirolas e aquece o coração para junho. Entre os dias 20 e 24 de junho, no Parque de Exposições Teopompo de Almeida, a cidade vai viver algo raro: um encontro entre tradição popular, planejamento público e compromisso social. O resultado com certeza vai se repetir: o maior São João da história do município — e, mais do que isso, um São João com propósito.
Não se trata apenas de números, embora eles impressionem. Público recorde, impacto econômico significativo, projeção estadual. Trata-se de sentido. O Arraiá da Conquista mostrou que cultura não é ornamento administrativo; é política pública estruturante, capaz de gerar renda, pertencimento e cidadania.
A gestão da prefeita Sheila Lemos, com uma equipe que compreendeu a dimensão estratégica da cultura — e aqui é justo destacar o trabalho do assessor especial Alecxandre Meira na condução da política cultural — conseguiu algo que muitas administrações tentam e poucas alcançam: unir eficiência administrativa com sensibilidade humana. O forró não abafou as vozes; ao contrário, amplificou-as.
E essa amplificação ganha contornos ainda mais claros quando observamos a prorrogação das inscrições para artistas e intérpretes de Libras no Arraiá da Conquista 2026. O gesto é simples na forma, mas profundo no conteúdo. Ele diz, sem precisar discursar: ninguém fica para trás. Com um investimento de R$ 447.280,00, distribuído entre até 60 artistas, grupos e intérpretes, o poder público reafirma que inclusão não é slogan — é escolha orçamentária.
Ao permitir a participação de artistas de toda a região, sem exigência de residência em Vitória da Conquista, o evento rompe fronteiras simbólicas e se afirma como um São João democrático, plural, regionalmente integrado. A curadoria técnica, o edital público, a transparência do processo: tudo isso constrói autoridade institucional e confiança social.
Há algo de profundamente pedagógico nisso. O Arraiá ensina que festa também educa. Ensina convivência, respeito, diversidade. Ensina que acessibilidade não é favor, é direito. Que cultura não é gasto, é investimento. Que alegria, quando bem conduzida, pode ser instrumento de transformação social.
Caminhar pelo Parque de Exposições durante o Arraiá foi como atravessar um mosaico sensorial: o cheiro da pamonha quente, o som do sanfoneiro rasgando a noite fria, as cores dançando no céu, os corpos diversos ocupando o mesmo espaço com dignidade. Ali, Conquista não apenas comemorava — se reconhecia.
Por isso, quando se fala em Arraiá da Conquista 2026, não se fala apenas de expectativa festiva. Fala-se de responsabilidade histórica. Que ele seja maior, sim. Mas, sobretudo, que continue sendo mais humano, mais inclusivo, mais cidadão. Que siga provando que políticas culturais bem feitas não apenas entretêm — transformam.
Porque, no fim das contas, algumas festas terminam quando as luzes se apagam. Outras, como o Arraiá da Conquista, continuam acesas dentro da cidade. E quando uma cidade pulsa cultura, ela pulsa futuro.




