Por Padre Carlos
A política brasileira, em sua face mais obscura, frequentemente se assemelha a um mercado de balcão onde a moeda de troca não é o bem comum, mas o dossiê, a influência e o silêncio. A recente denúncia envolvendo o advogado Eli Cohen e o ex-policial Rogério Gilio Gomes — personagens que transitam na zona cinzenta das investigações privadas — lança luz sobre um fenômeno corrosivo: a transformação de comissões parlamentares em instrumentos de extorsão ou de aluguel político.
O relato contido no documento registrado em cartório por Gomes é um roteiro digno de um thriller de baixo orçamento, mas com implicações institucionais de alto custo. A acusação de que Cohen teria solicitado R$ 5 milhões a Duda Lima, marqueteiro do PL, sob a promessa de “derrubar a república do PT” e direcionar as investigações da CPMI do INSS contra o presidente Lula e sindicatos aliados, não é apenas um escândalo ético; é um sintoma da falência da fiscalização republicana quando capturada por interesses privados.
A Anatomia do Oportunismo
O que vemos aqui é o cruzamento perigoso entre o compliance de fachada e a politicagem de bastidor. Eli Cohen, outrora celebrado por denunciar fraudes reais no INSS, parece ter sucumbido à tentação de precificar seu conhecimento. Se as alegações de Gomes forem comprovadas, Cohen deixou de ser um colaborador da justiça para se tornar um corretor de narrativas.
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A “Privatização” da Investigação: Quando investigadores privados e advogados usam o acesso a dados sensíveis para barganhar com marqueteiros partidários, a verdade se torna secundária ao valor do cheque.
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O Uso Político das CPMIs: As Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito, que deveriam servir para sanear o Estado, tornam-se, neste cenário, palcos de um teatro de marionetes onde quem paga mais dita o roteiro dos depoimentos e o foco dos relatórios.
O Peso da Prova e a Credibilidade da Acusação
É imperativo olhar para o acusador com o mesmo rigor dedicado ao acusado. Rogério Gilio Gomes, um ex-colaborador da justiça, possui um histórico que o coloca dentro do mesmo ecossistema de Cohen. O fato de a denúncia ter sido registrada em cartório confere a ela uma formalidade jurídica, mas não a torna verdade absoluta de imediato.
Contudo, a revelação feita pela Folha de S.Paulo acende um alerta vermelho sobre como o “mercado de investigações” em Brasília opera. O valor mencionado — R$ 5 milhões — é específico demais para ser ignorado e sugere uma confiança desmedida na impunidade.
Conclusão: A República em Xeque
Se a função de um advogado e de um investigador é buscar a justiça, a tentativa de vender o direcionamento de uma investigação legislativa é o ápice da prevaricação moral. Se o marqueteiro do principal partido de oposição foi de fato abordado com tal proposta, entramos em um território onde a disputa eleitoral abandona as ideias para se tornar uma guerra de mercenários.
A democracia não pode aceitar que o “combate à corrupção” seja usado como mercadoria. É preciso que as autoridades investiguem a fundo não apenas a veracidade desse pedido de suborno, mas o alcance dessa rede de influências. Afinal, se a “República” pode ser “derrubada” por um preço tabelado, então o que temos não é um Estado de Direito, mas uma leilão de conveniências.





