Política e Resenha

ARTIGO – (Daqui do Além-Mar, a Tuta do Cravo Floresce e o Racismo é Derrotado)

 

 

(Padre Carlos | Blog Política e Resenha)

 

Aqui, do outro lado do Atlântico, escrevemos com o coração atento e a memória histórica desperta. O Política e Resenha saúda, com respeito e emoção, o povo português pela vitória democrática alcançada hoje. Não é apenas um resultado eleitoral; é um gesto civilizatório. É a confirmação de que a tuta do cravo segue viva, atravessando o mar, ligando povos pela mesma aspiração: liberdade, igualdade e dignidade humana.

Os resultados da segunda volta das eleições para Presidente da República, em 8 de fevereiro de 2026, ecoaram forte também aqui, deste lado do além-mar. Mesmo diante das dificuldades impostas pelas intempéries, a participação popular significativa mostrou que a democracia sabe levantar-se quando é desafiada. E levantou-se para derrotar o projeto do ódio, rejeitando nas urnas uma candidatura reacionária, retrógrada e antidemocrática, incompatível com a Constituição da República Portuguesa.

Do Brasil, acompanhamos com atenção e saudamos a clara rejeição do povo português às concepções que alimentam a mentira como método, a xenofobia como discurso, o racismo como política e a divisão como estratégia. A derrota de André Ventura ganha ainda mais peso quando lembramos a ampla e sistemática promoção de ideias que afrontam Abril, atacam direitos democráticos e se alinham aos interesses do grande capital. O povo disse não — e disse alto.

É impossível não evocar o cravo. Em Mário Soares, foi a reconstrução democrática e o compromisso com os direitos humanos. Em Álvaro Cunhal, foi a resistência firme contra as desigualdades que sustentam o racismo estrutural. Hoje, esse cravo floresce na ação consciente de um povo que impede que o autoritarismo se instale no mais alto cargo da República. não podemos esquecer Jerônimo e  como símbolo do presente político, Paulo Raimundo representa a continuidade dessa luta quando políticas públicas, inclusão social e combate ao racismo deixam o discurso e viram prática.

Aqui, no Política e Resenha, afirmamos: a democracia não se resume ao ato de votar, mas o voto é, sim, uma trincheira decisiva quando o ódio tenta se normalizar. A vitória de hoje impõe responsabilidades ao novo Presidente da República: defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição. Não se governa para o grande capital ignorando direitos sociais; não se garante estabilidade sacrificando a dignidade do povo. A fidelidade constitucional é a medida mínima da democracia.

Ainda assim, não nos iludimos. A derrota eleitoral de um candidato não apaga, por si só, o perigo das ideias que ele representa. A difusão de concepções racistas, xenófobas e antidemocráticas exige denúncia permanente e combate político contínuo. A democracia se defende nas urnas, mas também nas ruas, nos locais de trabalho, nas escolas e na luta organizada dos trabalhadores e do povo.

Por isso, a luta segue. Segue na defesa de salários dignos, dos direitos trabalhistas, na resistência aos retrocessos sociais, nas mobilizações populares — como a manifestação nacional convocada pela CGTP-IN para 28 de fevereiro. Segue na reconstrução das regiões atingidas pelas intempéries, na proteção da juventude, na recuperação da vida econômica e social, na afirmação de uma política que coloque a vida acima do lucro.

Daqui do além-mar, o Política e Resenha parabeniza o povo português. A tuta do cravo está viva porque a democracia resistiu. Está viva porque o racismo foi derrotado nas urnas. Está viva porque Abril continua sendo futuro. E enquanto houver povo consciente, luta social e compromisso com os direitos humanos, o cravo seguirá florescendo — vermelho, insurgente e necessário.