
Padre Carlos
Na política, como no xadrez, há momentos em que o jogador percebe que já não controla o centro do tabuleiro. Restam-lhe as peças mais valiosas — e, às vezes, apenas uma jogada ousada para evitar o xeque-mate. É exatamente esse o cenário que se desenha para o PT de Vitória da Conquista, que tenta atrair Lula presidente à cidade como último trunfo eleitoral, numa tentativa clara de reverter a perda de prestígio e influência sofrida nas urnas.
A derrota petista na última eleição municipal não foi apenas numérica; foi simbólica. Quando Sheila Lemos (União Brasil) se reelegeu em primeiro turno, com 58,83% dos votos válidos, contra apenas 26,74% de Waldenor Pereira (PT), o recado das urnas foi direto e desconfortável: o PT Bahia, outrora hegemônico em parcelas expressivas do eleitorado, havia perdido a capacidade de conduzir o jogo político local. Não se tratou de um tropeço circunstancial, mas de uma mudança estrutural no humor do eleitorado e na correlação de forças da Vitória da Conquista política.
Essa perda abriu um vácuo. E vácuos, na política, raramente permanecem vazios. É nesse espaço que cresce a disputa interna na esquerda brasileira, com o avanço estratégico do PCdoB Bahia. O temor petista é evidente — ainda que raramente confessado em público: o de que o candidato comunista ultrapasse o PT em votos, se consolide como novo polo de liderança e reivindique o protagonismo da esquerda conquistense no próximo ciclo eleitoral. Ser ultrapassado por um aliado histórico seria, para o PT local, mais do que uma derrota: seria uma inversão de papéis.
Enquanto o PT aposta no capital simbólico de Lula, o deputado do PCdoB trabalha o terreno com paciência e método. Tem construído uma frente política heterogênea, rompendo as antigas cercas ideológicas e dialogando tanto com a esquerda clássica quanto com setores da direita pragmática, aquela que se move menos por dogmas e mais por resultados. É uma estratégia de sobrevivência partidária e, ao mesmo tempo, de expansão: ocupar espaços, somar forças, ampliar o arco de alianças e apresentar-se como alternativa viável em meio à crise do PT local.
Nesse contexto, a possível visita de Lula a Vitória da Conquista ganha contornos que vão além do institucional. Não é apenas um gesto administrativo ou partidário; é uma jogada de alto risco nos bastidores eleitorais. Se der certo, pode reacender a chama de um partido que já foi dominante. Se falhar, pode acelerar o deslocamento do centro de gravidade da esquerda para outro campo, fortalecendo o PCdoB e aprofundando a sensação de esgotamento do projeto petista no município.
A política, ensina a história, não perdoa hesitações nem vive de nostalgia. Vitória da Conquista entra em um novo ciclo, em que velhas lideranças disputam espaço com novas articulações, e em que a hegemonia já não é dada como certa. O tabuleiro está montado, as peças em movimento. Resta saber se o PT ainda consegue jogar como rei — ou se já atua apenas para evitar outra derrota como foi as eleições 2024.




