Política e Resenha

ARTIGO – O MISTÉRIO DA BR-116: ENTRE O SILÊNCIO DO EDITAL E O FUTURO DO SUDOESTE

 

 

JOSE MARIA CAIRES
DUPLICA SUDOESTE

Por que o edital da concessão da BR-116, no trecho da chamada RIO BAHIA, ainda não veio a público? O que está por trás desse atraso que inquieta empresários, caminhoneiros, prefeitos e milhares de famílias que dependem da rodovia para viver?

A pergunta ecoa como o ronco constante dos caminhões que atravessam o Sudoeste baiano. E não é apenas uma questão burocrática. É uma questão de desenvolvimento econômico, geração de empregos, infraestrutura e futuro regional.

Há algo no ar. E não é apenas poeira de asfalto desgastado.

O projeto prevê um investimento robusto: R$ 15,5 bilhões ao longo de 30 anos. A promessa é sedutora — quase 74 mil empregos diretos. Números que, por si só, deveriam atrair grandes grupos nacionais e internacionais. O próprio Ministro dos Transportes, Renan Filho, tem buscado investidores até fora do país, numa verdadeira peregrinação institucional.

Mas aqui reside o ponto de inflexão dessa história.

Se o projeto é tão grandioso, por que o mercado parece hesitar?

Investidores não decidem com emoção. Decidem com planilhas. O capital é pragmático. Analisa risco, retorno, fluxo de caixa, prazo de amortização, segurança jurídica e atratividade regulatória. E, ao que tudo indica, o formato do edital pode não estar dialogando com essa lógica.

Vejamos os números previstos: 61 passarelas, 70 rotatórias alongadas, 217 acessos, 298 paradas de ônibus. São exigências que elevam o custo inicial de implantação. Soma-se a isso a obrigação de duplicar os primeiros 49,30 km em apenas dois anos — antes que a receita de pedágio amadureça.

Em outras palavras: investimento alto no início, retorno lento depois.

Para o usuário comum, essas obras significam segurança viária, mobilidade urbana, redução de acidentes. Para o investidor, representam desembolso imediato e incerteza de payback. É aqui que o desenho contratual precisa ser equilibrado com inteligência estratégica.

Não se trata de defender menos obras. Trata-se de estruturar um modelo de concessão rodoviária que seja economicamente viável e socialmente responsável.

E há um temor que paira, silencioso, nas conversas de bastidores: a possibilidade de ausência de interessados. Um leilão vazio seria um sinal preocupante para a política de infraestrutura federal. Seria também um golpe simbólico no projeto de desenvolvimento do interior da Bahia.

Voltar à antiga concessionária, a VIABAHIA, parece não ser uma alternativa desejável. O desgaste institucional, os questionamentos sobre desempenho e a insatisfação popular tornaram essa hipótese politicamente tóxica.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a administração de uma rodovia. É a credibilidade do modelo de concessões, a confiança do mercado em parcerias público-privadas e o próprio dinamismo econômico do Sudoeste baiano.

Permita-me falar baixo agora, quase como quem confessa algo ao leitor: a BR-116 não é apenas uma estrada. Ela é uma artéria. E quando uma artéria falha, todo o organismo sente.

Vitória da Conquista, Jequié, Poções, Planalto — cidades que respiram comércio, transporte, serviços — dependem dessa via. A duplicação não é luxo. É necessidade estratégica. É competitividade logística. É segurança para quem viaja. É redução de custos para quem produz.

Talvez o edital precise de ajustes técnicos. Talvez seja necessário recalibrar prazos, redistribuir obrigações, criar mecanismos de mitigação de risco. O mercado responde quando percebe racionalidade econômica.

O Brasil já demonstrou que sabe estruturar concessões bem-sucedidas. O problema não é falta de capital global. O problema é desenho contratual.

E aqui chegamos ao ponto central: desenvolvimento regional exige coragem política e inteligência técnica. Não basta anunciar bilhões. É preciso transformar números em realidade.

A população do Sudoeste não quer promessas. Quer duplicação da BR-116, quer segurança nas estradas, quer crescimento sustentável, quer empregos reais.

O mistério da BR-116 precisa ser resolvido com transparência, eficiência e diálogo com o mercado. Porque estrada parada significa progresso parado.

E o Sudoeste baiano já esperou demais.