Política e Resenha

ARTIGO – DA PERIFERIA AO CONTRATO SOCIAL: QUANDO A FILOSOFIA ME DEU LENTES PARA ENTENDER A LUTA

 

 

Padre Carlos

 

Eu vim da periferia.

Vim da rua de barro, da casa simples, da luta diária para sobreviver. Vim da Pastoral Operária, onde aprendi cedo que fé e justiça social não podem andar separadas. A militância corria nas veias antes mesmo de eu saber explicar o que era militância. Eu sentia a injustiça na pele. Eu via a desigualdade na mesa vazia de muita gente. Eu conhecia o peso da exclusão muito antes de ouvir a palavra “estrutura”.

Mas foi no seminário, estudando filosofia, que algo mudou dentro de mim.

Até ali, eu tinha indignação. Tinha vontade de lutar. Tinha discurso inflamado. O que me faltava era teoria. Faltava entender o que estava por trás das engrenagens invisíveis que produzem desigualdade social, pobreza estrutural e concentração de poder. Foi ali, mergulhando nos clássicos da filosofia política, que encontrei Rousseau — e encontrei também uma chave para interpretar o mundo.

Jean-Jacques Rousseau não era um revolucionário de barricada. Era um pensador. Mas suas ideias incendiaram séculos. Ele escreveu algo que nunca mais saiu da minha cabeça: “O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado.”

Quando li isso pela primeira vez, não pensei na França do século XVIII. Pensei na periferia. Pensei no trabalhador que acorda às quatro da manhã e continua preso a um sistema que nunca foi feito para ele. Pensei na liberdade que nos vendem nos discursos, mas que não chega na vida real.

Rousseau me ajudou a entender uma coisa essencial: o problema não é que o povo seja incapaz. O problema é que as estruturas são montadas para proteger privilégios. Ele dizia que o homem, em seu estado natural, é bom. Que é a sociedade desigual que o corrompe. E quando ele critica a propriedade privada como origem das grandes desigualdades, ele está falando de algo que nós, da periferia, sempre soubemos intuitivamente.

Não é que o pobre não trabalhe. É que o jogo já começa desigual.

Antes de estudar Hobbes, Locke e Rousseau, eu já tinha lado. Mas foi na filosofia que compreendi o embate teórico por trás da luta social. Hobbes dizia que o homem é lobo do homem. Rousseau respondia: não, o homem se torna lobo dentro de uma sociedade injusta. Aquilo fez sentido imediato para mim.

Eu nunca vi solidariedade nascer dos palácios. Eu vi solidariedade nascer na comunidade, no mutirão, na partilha do pouco que se tem. Rousseau falava da vontade geral, da soberania popular, da ideia de que o povo deve governar. Não como massa manipulada, mas como cidadão consciente.

Ali, no silêncio da biblioteca do seminário, eu entendi que militância sem formação corre o risco de virar só grito. E teoria sem compromisso social vira só vaidade acadêmica. A força está quando as duas se encontram.

Rousseau influenciou a Revolução Francesa, inspirou o debate sobre democracia direta, soberania popular, cidadania participativa. Suas ideias atravessaram Marx, atravessaram o socialismo, atravessaram o tempo. E chegaram até mim — um jovem da periferia tentando compreender por que o mundo era tão desigual.

Foi ali que percebi: a luta precisa de fundamento. Não basta denunciar injustiça social. É preciso entender o contrato social que sustenta o sistema. É preciso questionar quem escreve as leis, a quem elas servem e por que a democracia representativa muitas vezes se distancia do povo.

Quando Rousseau afirma que a verdadeira democracia exige participação, ele está dizendo que política não pode ser terceirizada. Não existe cidadania sem envolvimento. Não existe soberania popular sem consciência política.

Hoje, olhando para trás, vejo que a Pastoral Operária me deu o chão. A filosofia me deu as lentes. A militância estava no sangue, mas foi no estudo que ela ganhou direção. Foi ali que compreendi que desigualdade social não é acidente — é projeto. E que transformar a sociedade exige mais do que indignação: exige pensamento crítico, formação política e compromisso coletivo.

Se Napoleão não teria existido sem Rousseau, muitos de nós também não seríamos os mesmos sem o encontro com as ideias que nos ajudam a entender o mundo.

A periferia me ensinou a lutar. A filosofia me ensinou por quê.