Política e Resenha

Baiano Doce de Alma Revolucionária

 

 

A Travessia de Renato Rabelo pela História do Brasil

Padre Carlos

 

O Brasil amanheceu com um silêncio diferente neste 15 de fevereiro de 2026.
Não era apenas o silêncio da morte. Era o silêncio das páginas que se fecham devagar, como quem respeita a grandeza da história que acabou de ser escrita.

Renato Rabelo partiu.

Há homens que ocupam cargos.
Há homens que ocupam épocas.

Renato ocupou uma época inteira da política brasileira.

Vice-presidente da União Nacional dos Estudantes quando o país mergulhava na noite da ditadura militar, ele escolheu não aprender a linguagem do medo. Enquanto muitos sussurravam, ele ergueu a voz. Enquanto portas se fechavam, ele procurava janelas. Era jovem — mas já carregava no peito a gravidade de quem entende que a democracia não é herança; é conquista.

Militante da Ação Popular, ajudou a integrar aquela organização ao Partido Comunista do Brasil em 1973. Não foi apenas uma mudança de sigla. Foi uma decisão estratégica no meio da tempestade. Em 1976, durante a brutal repressão que marcou a Chacina da Lapa, estava no exílio na França. Sobreviveu. E às vezes sobreviver também é um ato político.

Voltou com a anistia de 1979 trazendo na bagagem algo invisível: maturidade histórica. Ao lado de João Amazonas, ajudou a reconstruir o partido não como quem remenda um tecido rasgado, mas como quem redesenha o mapa de uma nação possível.

Renato compreendia que a política é como um rio.
Às vezes precisa de correnteza.
Às vezes precisa de margem.

Foi um dos articuladores da Frente Brasil Popular que lançou, em 1989, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Aquela derrota não foi fracasso. Foi semente. Ele sabia que a história brasileira é feita de ciclos longos, de acumulações silenciosas, de perseverança.

Quando assumiu a presidência do PCdoB, em 2001, enfrentou talvez seu maior desafio: participar de governos de coalizão sem perder a identidade, apoiar sem se dissolver, dialogar sem abdicar. Ajudou a construir as táticas políticas dos governos Lula e de Dilma Rousseff, acreditando que a democracia brasileira precisava ser defendida como quem protege uma chama em meio ao vento.

Chamaram-no de moderado.
Chamaram-no de estrategista.

Talvez fosse apenas coerente.

No cenário internacional, fortaleceu laços com China, Vietnã e Cuba, sempre sob a bandeira da soberania nacional. Para ele, o Brasil precisava dialogar com o mundo sem dobrar os joelhos.

Mas sua maior obra não está apenas nos discursos ou nas articulações políticas. Está nas pessoas que formou. Nos quadros que preparou. Nos jovens que ensinou a pensar estrategicamente. Ele sabia que partidos não sobrevivem apenas de memória; sobrevivem de renovação.

E aqui, permitam-me uma confissão pessoal.

Num tempo em que a política parece cansada, agressiva, ruidosa, Renato lembrava que é possível ser firme sem perder a doçura. Dilma o chamou de “um baiano doce de alma revolucionária”. Essa frase carrega uma síntese rara: doçura não como fragilidade, mas como humanidade. Revolução não como ódio, mas como projeto.

Ele acreditava em justiça social.
Acreditava em soberania nacional.
Acreditava que o Brasil poderia ser maior do que suas crises.

Sua morte não encerra apenas uma biografia. Ela nos devolve uma pergunta: quem continuará a travessia?

Porque a história não caminha sozinha. Ela precisa de pés. Precisa de coragem. Precisa de gente disposta a enfrentar o vento contrário.

O Partido Comunista do Brasil inclina sua bandeira. A esquerda brasileira chora. A política nacional perde um de seus estrategistas mais lúcidos. Mas o legado permanece — como farol, como memória, como desafio.

Renato Rabelo não buscou aplausos fáceis. Buscou coerência histórica. Não acumulou riqueza material. Acumulou sentido.

E talvez seja essa a verdadeira alegria: viver para além de si mesmo.

Baiano doce de alma revolucionária.
Homem de ideias e de ação.
Figura da história política brasileira.

Há vidas que terminam.
E há vidas que continuam ecoando.

A dele seguirá.