Padre Carlos
Há um som que todo motorista conhece — o impacto seco do pneu contra um remendo malfeito. Não é apenas barulho. É o retrato de uma cultura de improviso. É o eco de uma obra pública que começa com urgência técnica e termina com descuido estético e estrutural.
As intervenções da Embasa são, muitas vezes, necessárias. Romper o asfalto para corrigir falhas na rede de abastecimento ou esgotamento não é capricho: é prevenção de colapsos maiores. A própria Prefeitura reconhece isso ao acompanhar a manutenção no cruzamento das avenidas Avenida Jorge Teixeira e Avenida Alziro Prates, no bairro Candeias.
O problema não está na abertura do solo. Está no fechamento.
O que se vê com frequência, após a passagem das equipes terceirizadas, é um asfalto remendado sem nivelamento adequado, ondulações que mais parecem lombadas improvisadas, cicatrizes mal costuradas sobre a malha viária. O provisório vira permanente. O emergencial transforma-se em rotina. E a cidade — que deveria ser respeitada — passa a ser tratada como canteiro de obras sem dono.
É preciso dizer com clareza: terceirizar não significa terceirizar a responsabilidade.
Quando uma empresa contratada executa um serviço em nome de uma concessionária pública, ela carrega consigo o dever de excelência técnica. Não basta tapar o buraco; é necessário recompor a via com padrão de qualidade. O asfalto não pode ser apenas uma camada para “liberar o tráfego”. Ele precisa dialogar com o que já existia, manter o nivelamento, preservar a segurança e a durabilidade da pavimentação.
O secretário de Infraestrutura Urbana, Jackson Yoshiura, foi preciso ao afirmar que o asfalto atual é provisório e que a recomposição definitiva ocorrerá ao final do cronograma. A presença da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana é, portanto, mais que um gesto administrativo — é um ato de vigilância institucional. E aqui reside um ponto central: a fiscalização inibe o improviso.
Quando o poder público acompanha de perto, as empresas pensam duas vezes antes de fazer “de qualquer jeito”. Quando há monitoramento técnico, há compromisso. Quando há cobrança formal, há padrão.
Sem fiscalização, o que sobra é a paisagem conhecida: ruas que se tornam corredores de solavancos, suspensão de veículos comprometida, motociclistas em risco, drenagem prejudicada. Pequenos desníveis hoje são grandes problemas amanhã. O que era para ser manutenção preventiva vira despesa futura — paga, novamente, pelo contribuinte.
A cidade não pode se acostumar com a estética do remendo.
Obras emergenciais são compreensíveis. Acabamentos precários, não. Se o argumento é técnico, que a execução também o seja. Se a intervenção é necessária, que o resultado final seja digno da malha urbana que custou caro aos cofres públicos e à paciência da população.
Fiscalizar não é perseguir. É proteger o interesse coletivo.
É papel da Prefeitura acompanhar, exigir cronograma, cobrar recomposição definitiva, medir nivelamento, avaliar compactação, verificar espessura da camada asfáltica. É papel da concessionária assegurar que suas terceirizadas cumpram rigorosamente os padrões estabelecidos. E é direito da população receber a via de volta em perfeitas condições — não apenas transitável, mas tecnicamente adequada.
A cidade não é laboratório de improvisos. É espaço de vida.
Cada avenida mal recomposta é um lembrete de que eficiência sem qualidade é apenas pressa. E pressa, quando mal administrada, custa caro — em dinheiro, em segurança, em credibilidade.
Que a presença da fiscalização municipal não seja episódica, mas permanente. Que o provisório não se eternize. Que o asfalto volte a ser estrada — e não obstáculo.
Porque uma cidade que se respeita começa pelo chão que sustenta seus passos.





