
Por Padre Carlos
Eu fecho os olhos e, de repente, estou lá. O ar úmido de Salvador, carregado do cheiro doce de cachaça barata misturada ao suor de corpos que se entrelaçam sem pudor. O batuque dos atabaques pulsa no peito como um coração coletivo, e as risadas ecoam pelas ruas de pedra do Garcia, onde o sol poente pinta de ouro as fachadas antigas. Não é uma memória minha – ou talvez seja, herdada dos mais velhos, daqueles que carregavam as mortalhas e as fantasias simples, dançando atrás dos cordões de rua. Era o Carnaval de verdade, o de antes dos trios elétricos e dos abadás numerados. O de confraternização pura, onde o pobre e o rico, o negro e o branco, se misturavam como confetes no vento.
Ah, como dói essa nostalgia, leitor. Como uma facada doce no peito, que nos faz questionar: por onde andam aqueles espíritos de alegria e confraternização? Hoje, ao pisar na rua durante a folia, o que encontramos não é o abraço fraterno, mas o soco no escuro, a garrafada no ar, o olhar carregado de fúria. A violência que se infiltrou como veneno no sangue da festa. E no meio dessa bagunça, surge ela, a Mudança do Garcia, como um farol teimoso no meio da tempestade. Esse bloco centenário, nascido nos anos 1920 no coração do bairro que lhe dá nome, não é só um desfile – é a encarnação viva do espírito daqueles cordões de rua que outrora dominavam as avenidas da Bahia.
Pense comigo: imagine os carnavais antigos de Salvador, aqueles dos grandes clubes como o Fantoches o Portugugês, a AABB e o Espanhol. Mas o verdadeiro pulsar da folia batia nas veias populares. Os cordões de rua – agremiações humildes, feitas de percussão crua, fantasias improvisadas e uma irreverência que desafiava as grades da sociedade. Batucadas que saíam dos becos do Garcia, da Liberdade, da Baixa dos Sapateiros, levando a multidão para as ruas sem cordas, sem barreiras, só o ritmo e o riso. Eram blocos de protesto disfarçados de festa, onde o povo negro e mestiço tomava as avenidas, transformando o entrudo em ato de resistência. A Mudança do Garcia, com seus 100 anos de tradição, carrega essa chama no peito. Seu desfile na segunda-feira gorda – do final de linha do bairro até o Circuito Riachão, homenageando o sambista Clementino Rodrigues – é um grito vivo: “Aqui estamos, ainda irreverentes, ainda unidos pelo humor e pela diversidade!”
É como se o Garcia fosse o último bastião de um rio que um dia correu livre. Metáfora? Talvez. Mas olhe ao redor: o Carnaval de hoje, com seus blocos cercados por cordas de segurança e cordeiros exaustos, virou um labirinto de classes. A pipoca – a gente do povo – fica do lado de fora, assistindo de longe, enquanto lá dentro, nos camarotes e trios, a festa se isola. E o pior: a alegria deu lugar à fúria. Relatos recentes, de brigas que explodem como fogos fora de hora, assédios que mancham a noite, armas brancas reluzindo no meio da multidão. Onde está o espírito de outrora? Aquele que fazia da máscara não uma armadura, mas uma ponte?
Aqui entra a voz de Chico Buarque, ecoando como um oráculo. Em “Noite dos Mascarados”, ele e Elis Regina cantam: “Quem é você? Adivinha se gosta de mim… Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados, perguntando assim.” Ah, que canção! Uma ode ao Carnaval como espaço de liberdade, onde as identidades se dissolvem, o ódio se dissolve, e só resta o desejo cru, o abraço anônimo. “Mas é Carnaval, não me diga mais quem é você. Amanhã tudo volta ao normal.” Era isso: a reta do Carnaval – aquela linha reta de pura folia, sem curvas de preconceito – virou careta neste tempo de fúria e ódio. Careta, sim, porque o que vemos agora não é a máscara que liberta, mas a cara feia da divisão social, do rancor político, da intolerância que se infiltra como um vírus na multidão. O Carnaval, outrora espelho da Bahia mestiça, agora reflete uma sociedade rachada, onde a confraternização é trocada por confrontos.
Eu não falo como um saudosista amargo, leitor. Falo como alguém que ama essa festa na alma, que cresceu ouvindo as histórias dos mais velhos e que, todo ano, busca nos blocos tradicionais um sopro de esperança. A Mudança do Garcia não é só um bloco; é um lembrete moral, um chamado intelectual para resgatarmos o que nos define como baianos: a alegria que une, não a violência que separa. É o protesto com humor, a diversidade sem cordas, a rua como palco de todos.
E você, meu caro folião? Sente isso também? Essa saudade que aperta o peito, esse desejo de ver os cordões de rua renascerem, livres e selvagens? Que a Mudança do Garcia nos inspire a dançar de novo, sem medo, sem ódio. Porque, no fundo, o Carnaval não é só festa – é o coração batendo da Bahia. Vamos resgatá-lo, antes que ele se perca para sempre nas sombras da reta careta. Amanhã pode voltar ao normal, mas hoje… hoje, que sejamos máscaras de luz.




