Política e Resenha

ARTIGO – Nise da Silveira e o Grito que Ainda Ecoa: Manicômios Nunca Mais

 

Padre Carlos

 

Ontem, 15 de fevereiro, a história nos chamou à memória. Se estivesse entre nós, Nise da Silveira teria completado 121 anos. Cento e vinte e um anos de uma vida que não cabe no calendário, porque se tornou consciência permanente da saúde mental brasileira.

O Política e Resenha presta hoje esta homenagem à sua memória — não como gesto protocolar, mas como reconhecimento histórico. Celebrar Nise é reafirmar um compromisso com a dignidade humana, com a Reforma Psiquiátrica, com a luta antimanicomial e com uma política pública de saúde mental verdadeiramente humanizada.

Você já entrou em um hospital psiquiátrico antigo? Já sentiu o silêncio pesado dos corredores, o cheiro de desinfetante misturado à desesperança, o olhar perdido de quem foi esquecido pelo mundo?

Eu já. E elas não são metáforas. São cicatrizes abertas na memória do Brasil.

No coração do século XX, quando a psiquiatria tradicional ainda tratava a esquizofrenia com eletrochoques violentos, camisas de força e lobotomia, uma mulher ousou dizer não. E esse “não” foi revolucionário.

A coragem de uma médica chamada Nise da Silveira

Nascida em Maceió, em 1905, ela atravessou o machismo estrutural da época como quem atravessa uma tempestade de cabeça erguida. Aos 16 anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia — única mulher entre 157 homens. Não foi apenas uma estudante brilhante. Foi um gesto político vivo.

Mas o que realmente a tornaria gigante na história da saúde mental no Brasil aconteceria anos depois, no Rio de Janeiro.

Em maio de 1946, no antigo Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, ela criou a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR). Não era apenas um setor. Era uma ruptura.

Enquanto colegas defendiam choques elétricos, ela oferecia pincéis.
Enquanto outros defendiam cortes no cérebro, ela oferecia afeto.

Ela acreditava que o sofrimento psíquico não era lixo a ser eliminado — era linguagem a ser compreendida.

E aqui está o ponto de virada da nossa história.

Nise não estava apenas criando um método alternativo. Ela estava desafiando o paradigma cartesiano da psiquiatria manicomial. Estava dizendo que a arte como terapia não era passatempo. Era ciência. Era psicologia profunda. Era respeito à dignidade humana.

O método que humanizou a loucura

Com base sólida em Jung e profundo conhecimento de Freud, Nise estruturou critérios técnicos, organização terapêutica e observação clínica rigorosa. Nada era improviso. Havia método, sistematização e análise.

A pintura, a modelagem, o teatro, a música — tudo era instrumento de expressão do inconsciente.

Em 1952, ela fundaria o Museu de Imagens do Inconsciente, transformando obras produzidas por internos em patrimônio cultural e científico. Aqueles que eram chamados de “incuráveis” revelavam universos simbólicos complexos.

Você percebe o que isso significa?

Ela devolveu humanidade a quem o sistema havia reduzido a diagnóstico.

Mais tarde, em 1956, criou a Casa das Palmeiras — um modelo precursor do que hoje conhecemos como CAPS, dentro da lógica da Reforma Psiquiátrica Brasileira consolidada na Lei de 2001.

A luta antimanicomial não começou em gabinetes ministeriais. Começou ali, no gesto silencioso de uma médica que escolheu escutar.

Manicômios nunca mais: um alerta para o presente

Ao longo do século XX, denúncias de violência, abandono e tortura nos manicômios vieram à tona. A Reforma Psiquiátrica foi conquista histórica: fechamento progressivo de hospitais psiquiátricos, criação da Rede de Atenção Psicossocial, fiscalização de internações e combate ao uso indiscriminado de eletrochoque.

Mas a história não é linha reta.

Recentemente, mudanças na política nacional de saúde mental reacenderam debates sobre financiamento de hospitais psiquiátricos e revalorização de práticas que muitos acreditavam superadas. O tema voltou ao centro da discussão pública.

E é aqui que precisamos de lucidez.

Não se trata de ideologia partidária. Trata-se de modelo de cuidado.
Não se trata de esquerda ou direita. Trata-se de dignidade humana.

A ciência evoluiu. A psicologia evoluiu. A compreensão sobre transtornos mentais evoluiu. A esquizofrenia hoje é entendida dentro de um espectro biopsicossocial complexo. O tratamento moderno integra medicação, acompanhamento terapêutico, suporte comunitário e intervenções psicossociais.

Retroceder é ignorar décadas de evidências científicas.

A mulher que enfrentou prisões e dogmas

Nise foi presa durante o Estado Novo. Conviveu com intelectuais, enfrentou perseguições, suportou boicotes dentro da própria comunidade médica. Poderia ter se rendido. Não se rendeu.

Ela escolheu os marginalizados.
Escolheu os silenciados.
Escolheu os chamados “loucos”.

E talvez sua frase mais perturbadora ainda ecoe:
“Os juízes deveriam passar dois anos na cadeia para avaliar ao que condenam seus semelhantes.”

Que médica fala assim?
Uma médica que viu a alma humana de perto.

Saúde mental é civilização

Permita-me sussurrar algo a você: o modo como uma sociedade trata seus doentes mentais revela seu grau de civilização.

Não há democracia madura sem política pública de saúde mental humanizada. Não há desenvolvimento social sem rede de cuidado integral. Não há justiça social sem olhar para quem sofre invisivelmente.

Quando defendemos a luta antimanicomial, não defendemos romantização da doença. Defendemos ciência aliada ao afeto. Defendemos tratamento digno. Defendemos que ninguém seja reduzido a um prontuário.

Nise da Silveira morreu em 1999. Mas sua voz continua viva em cada CAPS, em cada terapeuta ocupacional, em cada monitor que entende que presença afetiva também é instrumento clínico.

Ela nos ensinou algo fundamental:
o oposto da loucura não é a normalidade.
É o abandono.

E enquanto houver risco de retrocesso, sua memória continuará sendo não apenas homenagem — mas trincheira.

Porque manicômios nunca mais não é slogan.
É compromisso civilizatório.