Padre Carlos
Há discursos que passam. Outros ficam. E há aqueles raros momentos em que a política deixa de ser protocolo e se transforma em confissão pública.
Não faz muito tempo, em um evento aparentemente comum, o eterno deputado Élquisson Soares falou com os olhos marejados. Não era encenação. Não era retórica vazia. Era memória viva.
Ele evocou o nome de Ubirajara Pereira de Brito, o nosso querido Nego Bira — aquele que repetia com o peito inflado:
“Conquista é uma cidade grande sem favela.”
A frase sempre soou como um hino cívico, quase uma oração laica de orgulho municipal. Mas naquele dia ela foi pronunciada como alerta.
Porque nas encostas do Cristo — cartão-postal, símbolo turístico, mirante da nossa autoestima urbana — cresce silenciosamente uma mancha que fere o horizonte: a pobreza extrema. A desigualdade social que insiste em romper o discurso oficial. A habitação precária que ameaça transformar orgulho em constrangimento.
“Fui lá e saí arrasado”, disse o deputado.
E quando um homem calejado pela vida pública admite que saiu arrasado, precisamos ouvir.
A cidade que se olha no espelho
Vitória da Conquista construiu, ao longo das décadas, uma reputação rara no cenário urbano brasileiro. Planejamento urbano relativamente organizado. Crescimento econômico consistente. Polo educacional forte. Comércio vibrante. Uma cidade que se tornou referência regional.
Mas nenhuma cidade é grande apenas por seus prédios. Nenhum município é forte apenas por seus índices de desenvolvimento.
O verdadeiro patrimônio de uma cidade é o seu povo.
E quando esse povo começa a se abrigar nas encostas, improvisando moradia onde deveria existir política pública, não estamos diante apenas de um problema habitacional. Estamos diante de um teste moral.
Porque políticas de habitação popular não são números em planilhas. São dignidade concreta. São saneamento básico, infraestrutura urbana, segurança jurídica, desenvolvimento social. São políticas públicas que impedem que o sonho urbano se transforme em tragédia anunciada.
Um memorial vazio de vida se torna museu de coisas mortas.
Vontade política e coragem moral
Naquele evento, Élquisson Soares não fez oposição. Não fez palanque. Fez convocação.
Chamou vereadores. Chamou a prefeita. Chamou a sociedade civil. Pediu algo simples e poderoso: que fossem ver com os próprios olhos.
A política moderna fala muito em dados. E precisa falar. Planejamento urbano, orçamento municipal, investimento público — tudo isso exige técnica. Mas há algo anterior à técnica: a capacidade de se deixar afetar.
A boa política nasce quando o gestor público pisa no chão de barro.
E é por isso que hoje é preciso registrar, com senso de justiça histórica, que o clamor foi ouvido.
A Câmara Municipal, através de seu presidente, e a prefeita Sheila Lemos, anunciaram a destinação de trinta milhões de reais para moradias populares naquela área.
Não se trata de favor. Trata-se de responsabilidade pública.
Não se trata de propaganda. Trata-se de política habitacional concreta.
Quando a história respira aliviada
Há momentos em que a cidade prende a respiração. E há momentos em que ela solta o ar.
Esse investimento não resolve todos os desafios da desigualdade social. Não elimina magicamente os riscos da expansão urbana desordenada. Não encerra o debate sobre políticas públicas estruturantes.
Mas sinaliza algo essencial: memória não é peça de museu. Memória é bússola.
Se o velho Bira construiu uma identidade coletiva afirmando que “Conquista é uma cidade grande sem favela”, não podemos permitir que essa frase se transforme em ironia histórica.
A cidade cresce. O orçamento cresce. O comércio cresce. Que cresça também a justiça social.
Porque uma cidade verdadeiramente desenvolvida é aquela que protege seu cartão-postal e, ao mesmo tempo, protege quem mora à sua sombra.
Hoje, escrevo para dizer ao deputado e ao Velho Bira: o clamor ecoou. A política respondeu. A dignidade começou a ganhar forma concreta.
Que Conquista continue grande — não apenas no mapa, mas na consciência.
E que nunca nos falte coragem moral para olhar a cidade do alto do Cristo… e também do fundo das encostas.
Porque é ali, onde a dor aparece antes da estatística, que se decide o futuro de uma nação chamada município.





