Política e Resenha

ARTIGO – Tempo de Intensa Crueldade: Quando a Memória se Recusa a Morrer (Padre Carlos)

 

Padre Carlos

 

Há livros que nascem para ocupar prateleiras. Outros nascem para inquietar consciências. Tempo de Intensa Crueldade não é apenas uma obra — é um chamado. Um chamado à memória, à responsabilidade histórica e à coragem de olhar para um dos períodos mais sombrios da história do Brasil: a ditadura militar brasileira.

No próximo dia 26 de fevereiro, às 19h30, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, não teremos apenas um lançamento literário. Teremos um reencontro com aqueles que lutaram, resistiram e, em muitos casos, morreram sob o peso da repressão política, da censura, da tortura e do silêncio imposto.

Resgatar essas histórias não é um gesto ideológico. É um ato civilizatório.

Vivemos tempos em que a palavra “ditadura” é banalizada, relativizada, distorcida. Há quem fale em “excessos”, há quem invoque “contextos”, há quem prefira esquecer. Mas a memória histórica não é um luxo acadêmico — é um antídoto contra a repetição da barbárie. Quando esquecemos os desaparecidos políticos, quando ignoramos os perseguidos, quando tratamos a dor como detalhe, abrimos espaço para que a crueldade volte a vestir farda.

E é exatamente contra esse esquecimento que Ana Isabel Rocha Macedo se levanta.

Quem é essa tal Ana Isabel?

Seria fácil descrevê-la como “uma pessoa comum”. Mas não é comum dedicar décadas à educação, à militância política, ao teatro, à reflexão crítica e, sobretudo, à construção de uma consciência coletiva. Professora por quase 30 anos na UESB, leitora apaixonada, escritora sensível, militante de convicções, Ana Isabel pertence àquela rara linhagem de mulheres que não se acomodam à superfície da vida.

Ela não se aposentou para parar — aposentou-se para abrir espaço. Não se afastou para silenciar — afastou-se para escrever com mais liberdade. Há grandeza nisso. Há generosidade histórica nisso.

Tempo de Intensa Crueldade é mais que memória pessoal. É documento. É testemunho. É literatura que pulsa. É o coração falando — e, como bem lembrava Maiakovski, há quem seja “todo-coração”. E quando o coração escreve sobre dor coletiva, o texto deixa de ser apenas narrativa: torna-se resistência.

Resgatar os que lutaram e morreram durante a ditadura não significa glorificar a violência. Significa reconhecer que houve jovens, estudantes, trabalhadores, religiosos, intelectuais que acreditaram que o Brasil poderia ser mais justo. Alguns erraram estratégias. Outros foram ingênuos. Muitos foram heroicos. Todos foram humanos.

E foram esmagados por um regime que institucionalizou o medo.

Hoje, quando vemos discursos autoritários reaparecerem nas redes sociais, quando a polarização política ameaça substituir o diálogo, quando a verdade histórica é atacada, livros como este tornam-se urgentes. Não se trata de abrir feridas — trata-se de impedir que elas sejam negadas.

A democracia não é apenas o direito de votar. É o direito de lembrar.

A noite de 26 de fevereiro será, portanto, mais que um evento cultural em Vitória da Conquista. Será um gesto político no sentido mais nobre da palavra: o de cuidar da pólis, da cidade, da memória comum.

Estar presente é afirmar que vidas não foram descartáveis. Que sonhos não foram inúteis. Que o sofrimento não foi em vão.

Em tempos de fake news, revisionismo histórico e superficialidade digital, a literatura ainda tem força para fazer o que nenhum algoritmo consegue: tocar consciências.

E talvez seja isso que Ana Isabel nos convida a fazer.

Entrar nesse livro com paixão.

Porque há momentos na história em que o silêncio é cumplicidade. E há momentos em que a memória é revolução.

Que este seja um desses momentos.