Padre Carlos
As anotações do senador Flávio Bolsonaro vieram a público como um raio em céu aparentemente controlado. Não se trata de um vazamento qualquer. Trata-se de um documento interno, manuscrito, esquecido numa sala da sede do Partido Liberal, revelando as engrenagens estratégicas da legenda nos 26 estados e no Distrito Federal.
É o tipo de material que raramente ganha luz. Um mapa de guerra eleitoral, com nomes, cifrões, preferências, desconfianças e frases que, no ambiente reservado da política, soam naturais — mas que, expostas, produzem ruído, tensão e manchetes.
E no topo do tabuleiro, antes mesmo de São Paulo ou Minas, uma palavra salta aos olhos: Bahia.
Bahia e o jogo de espera
Na Bahia, a anotação é curta, mas explosiva em significado:
“Conversar 1º (com ACM Neto) e depois tratamos de palanque completo”.
Traduzindo sem eufemismo: nada está fechado. Primeiro garante-se o acordo majoritário. Só depois se constrói o resto da engenharia eleitoral.
A frase revela uma hierarquia de prioridades. O PL sabe que a Bahia não é território secundário. É colégio eleitoral robusto, é palco simbólico, é vitrine política no Nordeste — região onde o bolsonarismo busca romper resistências históricas.
O nome de João Roma surge como opção ao Senado. Mas o tom do documento indica cautela, quase prudência estratégica. Nenhuma empolgação desenfreada. Nenhum “ok” definitivo. Apenas a lógica fria da negociação.
A Bahia, neste rascunho, não é certeza. É variável.
E variável, em política, significa risco.
O mapa da guerra nacional
O documento intitulado “Situação nos Estados” expõe mais que nomes: revela tensões internas, disputas por protagonismo e desconfianças cuidadosamente registradas à mão.
Em São Paulo, aparece a orientação “ligar Tarcísio”, numa referência direta ao governador Tarcísio de Freitas. Ao lado do nome do vice-governador Felicio Ramuth, um cifrão. Um símbolo que diz mais do que longas explicações.
O presidente da Alesp, André do Prado, surge como possível alternativa para a vice. Isso não é detalhe. É sinal de que a chapa, embora pública, não está blindada internamente.
Para o Senado paulista, o nome de Guilherme Derrite ganha destaque após visita a Jair Bolsonaro. Mas a segunda vaga vira quase uma disputa familiar, com referências a Mario Frias e à sigla “EB”, alusiva a Eduardo Bolsonaro.
Estratégia ou disputa doméstica? O papel não responde. Apenas insinua.
Minas e o cálculo implacável
Em Minas Gerais, a frase manuscrita sobre o vice-governador Mateus Simões é direta:
“Me puxa p/ baixo se for candidato”.
A política, quando privada, é brutalmente honesta. O nome de Flávio Roscoe aparece como alternativa, com a recomendação de diálogo com Nikolas Ferreira.
Nada ali é improviso. Tudo é cálculo.
Paraná, Mato Grosso do Sul e as bombas numéricas
No Paraná, há preferência explícita por Filipe Barros ao Senado — “só apoiamos ele”. Já Cristina Graeml “atrapalharia”. E Deltan Dallagnol aparece como candidato competitivo, ligado ao grupo do governador.
Mas foi no Mato Grosso do Sul que a anotação virou dinamite política: o deputado Marcos Pollon teria pedido “15 mi p/ não ser candidato”.
Depois, o senador alegou tratar-se de um registro de comentário ouvido, para alertar o colega. Pode ser. Mas, no tribunal da opinião pública, números falam mais alto que explicações.
Distrito Federal e Santa Catarina: família e força
No Distrito Federal, aparecem como nomes ao Senado Michelle Bolsonaro e Bia Kicis.
Já em Santa Catarina, um “X” risca Esperidião Amin. O Senado ficaria com Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni, enquanto Jorginho Mello tenta a reeleição.
Aqui, mais do que estratégia, vê-se influência.
O que realmente está em jogo?
O episódio revela três verdades incômodas:
-
A pré-campanha presidencial já está em marcha acelerada.
-
O PL vive disputas internas que o eleitor desconhecia.
-
A disciplina estratégica falhou.
Campanhas são vencidas na articulação silenciosa, não no rascunho exposto. Quando o mapa da guerra é esquecido sobre a mesa, não é apenas a imprensa que ganha. Os adversários agradecem.
E talvez a maior revelação não esteja nos cifrões, nem nas preferências rabiscadas. Está na fragilidade do método.
A política é feita de bastidores, mas é julgada na vitrine.
E, no caso dessas anotações, o que era para ser confidência virou espetáculo.
A Bahia, no alto da página, não era apenas um estado na lista. Era um sinal de que o jogo está aberto — e de que, no tabuleiro nacional, cada movimento mal guardado pode custar caro.





