Política e Resenha

Encerrar o Inquérito? Mas Já Passamos a Limpo a República de Curitiba?

 

Ah, então agora a pressa é encerrar o inquérito das fake news?

Que curioso.

A mesma elite midiática que durante anos tratou a chamada “República de Curitiba” como se fosse o Vaticano da moralidade pública, agora descobre súbitos escrúpulos constitucionais. Que iluminação tardia é essa? Uma epifania carnavalesca? Ou será apenas o velho e bom instinto de autopreservação batendo à porta?

Vamos com calma. Rebobinemos a fita, para usar uma expressão que os mais jovens talvez nem entendam, mas que a memória política exige.

O Supremo Tribunal Federal foi decisivo para impedir que o Brasil escorregasse para uma ruptura institucional aberta. Isso é fato. Se houve contenção da aventura autoritária, ela passou pela Corte. A História — aquela com “H” maiúsculo, que não aceita nota de rodapé apressada — registrará. Mas há uma pergunta que precisa ser feita antes de qualquer solenidade sobre “normalidade democrática”:

Normal para quem?

Como falar em encerrar instrumentos de investigação se o país ainda não passou a limpo o papel desempenhado por grandes conglomerados de comunicação durante a operação que ficou conhecida como “República de Curitiba”? Como esquecer que parte da imprensa — com destaque para a TV Globo — não apenas noticiou, mas muitas vezes amplificou, legitimou e embalou narrativas que ajudaram a construir o ambiente político que abriu as portas para o autoritarismo?

Houve flerte. E foi público. Foi um namoro explícito com o arbítrio, desde que o alvo fosse o “inimigo” da vez.

A cobertura quase litúrgica da Operação Lava Jato transformou procuradores e juízes em heróis de série semanal. A espetacularização substituiu a prudência. A presunção de inocência virou detalhe técnico, um estorvo para o “justiceiro” de plantão. Vazamentos seletivos eram tratados como revelações divinas, e ai de quem ousasse apontar o Código de Processo Penal.

E o resultado?

O ambiente institucional foi intoxicado. A descrença na política virou combustível. O discurso de que “as instituições apodreceram” pavimentou a ascensão de um projeto de poder que flertava abertamente com o fascismo.

Encerrar o inquérito agora, perguntam alguns, seria sinal de maturidade democrática. Talvez. Mas maturidade pressupõe memória. E memória pressupõe responsabilidade.

Como encerrar investigações se ainda não se esclareceu plenamente como estruturas do Estado foram capturadas por agendas ideológicas? Como falar em fim de excepcionalidade se o fascismo — sim, usemos o nome correto — infiltrou-se no aparelho estatal, nomeando quadros, ocupando espaços estratégicos e deixando sementes plantadas para continuar operando por dentro?

Há agentes que não desapareceram com a troca de governo. Há redes que não foram desativadas. Há interesses que continuam ativos sob o manto da “liberdade de expressão” — esse biombo que agora serve para esconder golpistas de estimação.

A pergunta de um milhão de dólares

A Globo tem medo de quê? Medo de que as investigações avancem? Medo de que certos episódios da cobertura jornalística sejam revisitados? Medo de que o passado recente seja analisado sem maquiagem narrativa?

Pode ser conveniente para o mercado, pode ser confortável para os editoriais dominicais. Mas conveniente não é sinônimo de justo. O inquérito não é um fim em si mesmo; é um instrumento de defesa da própria ordem que esses críticos dizem defender.

Caso contrário, corre-se o risco de repetir o velho erro brasileiro: virar a página sem ler o capítulo.

E não, não se trata de defender a eternização de poderes extraordinários. Trata-se de coerência histórica. Só quando os fatos forem completamente esclarecidos — inclusive o papel dos grandes atores midiáticos na construção do ambiente que permitiu a escalada autoritária — será possível falar em encerramento sereno.

Até então, a pressa soa menos como zelo democrático e mais como ansiedade preventiva. Passar o Brasil a limpo não é vingança. É condição para que a democracia respire sem aparelhos.

E democracia sem memória é apenas intervalo entre dois autoritarismos.