Política e Resenha

Irã, Estados Unidos e Israel: o mundo brinca com fósforos sobre um barril de pólvora

 

Por Padre Carlos

 

Eu lhe pergunto, leitor: que perspectiva nós temos diante do que se desenha entre Irã, Estados Unidos e Israel?

Os próximos dias serão decisivos. Não para satisfazer a curiosidade mórbida dos analistas de plantão, mas para apontar se caminharemos para a escalada ou para o abismo.

É muito difícil — para não dizer impossível — prever o “golpe fatal”. Havia negociações. Havia conversas. Havia, inclusive, sinais de concessões impensáveis até pouco tempo atrás. O próprio Irã já admitia registrar em documentos compromissos que, meses antes, seriam considerados inaceitáveis. E, de repente, a explosão. A ruptura. A violência.

Se alguém disser que sabe exatamente o que vai acontecer, estará vendendo bola de cristal.

Mas há algo que não exige vidência: os Estados Unidos permanecerão na ofensiva. Israel idem. Não é especulação; é padrão geopolítico. É a lógica da força como argumento final. É a diplomacia substituída pelo míssil.

E o mundo assiste.

Desde sábado, vemos a rua reagir. Não apenas gabinetes, não apenas chanceleres — a rua. Em Teerã, multidões pró-governo. Em Bagdá, tentativa de invasão da área da ONU. No Paquistão, protestos violentos e ataques a representações diplomáticas americanas.

A pergunta é inevitável: qual o peso disso?

É grande. E não é por acaso que estamos no Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos. Quando a fé é ferida nesse período, a reação não é apenas política — é simbólica, espiritual, visceral. O sentimento de resistência ganha contornos de dever religioso.

É preciso, contudo, fazer distinções. Nem todo muçulmano é árabe. O Irã, por exemplo, não é árabe — é persa, majoritariamente muçulmano xiita. No Iraque há sunitas e xiitas. No Paquistão, a maioria é sunita, mas há uma comunidade xiita significativa. E é justamente essa comunidade que tende a reagir com mais intensidade quando sente que sua liderança religiosa foi atingida.

Mas cuidado. Muito cuidado.

As ruas não são homogêneas. Nenhuma sociedade é.

Quem olha para o Irã de fora costuma enxergar uma massa uniforme, fanática, opressiva. Um erro grotesco. É uma sociedade profundamente religiosa, sim. A religião está nos espaços públicos, nas escolas, nas instituições. Mas é também uma sociedade plural, com tensões internas, com jovens conectados ao mundo, com comerciantes sufocados por uma inflação que já chegou à casa dos 40%.

Quando alguém protesta na rua, nem sempre está pedindo intervenção estrangeira. Muitas vezes está pedindo pão. Trabalho. Respiro econômico.

Há mulheres que contestam o uso obrigatório do hijab. Há outras que o defendem. Há setores que apoiam o regime. Há setores que o criticam. Não é um bloco monolítico. Não é uma caricatura.

E aqui reside minha indignação mais profunda.

Você pode ser contra o regime iraniano. Pode criticar sua estrutura política, sua polícia moral, suas restrições. Isso é legítimo.

O que não é legítimo — jamais será — é normalizar a violação do direito internacional. É aceitar bombardeios sob o argumento de que “ali havia mísseis”. É tolerar que mais de cem crianças morram e que isso seja tratado como dano colateral técnico.

Se uma potência consegue localizar um líder religioso com precisão cirúrgica, não consegue identificar que o prédio ao lado é uma escola?

Que mundo é esse em que a justificativa militar vale mais que a vida civil?

E ainda há o discurso hipócrita de “salvar as mulheres iranianas”. Como se bombas libertassem alguém. Como se explosões fossem instrumento de emancipação feminina. A transformação social, quando acontece, nasce de dentro. Já há mudanças na própria sociedade iraniana. Já há mulheres que desafiam códigos. Já há espaços onde o lenço não é usado com o rigor de antes. Processos são complexos, lentos, orgânicos.

Intervenções violentas não libertam — radicalizam.

O que me espanta é a facilidade com que se demoniza um povo inteiro. Até o termo “xiita” virou, no vocabulário popular brasileiro, sinônimo de radical, intransigente. O preconceito se infiltra na linguagem, e a linguagem molda o pensamento.

E assim se constrói o inimigo.

A grande questão não é apenas o que acontecerá entre Irã, Estados Unidos e Israel. A grande questão é que tipo de civilização estamos aceitando ser. Uma civilização que relativiza o direito internacional? Que escolhe quais vidas importam? Que transforma geopolítica em espetáculo?

Os próximos dias serão decisivos, sim. Mas não apenas para o Oriente Médio.

Serão decisivos para medir até onde vai nossa capacidade de indignação — ou nossa covardia moral.

Porque quando o mundo começa a achar normal que a força substitua a lei, não há fronteira segura.

Nem para eles.
Nem para nós.