Há um código antigo, respeitado até mesmo entre inimigos: ninguém fica para trás.
Nem ferido. Nem morto.
Nos campos de batalha, homens arriscam a própria vida para resgatar o companheiro tombado. Porque abandonar um dos seus não é apenas uma falha tática — é uma desonra.
E é impossível não perguntar: onde está esse código na esquerda de Vitória da Conquista?
Hoje meu coração fala com indignação e tristeza. Fala porque Genivan Silva Neri foi deixado para trás. Não no campo físico — mas no campo da memória.
Nenhuma praça.
Nenhuma rua no Guarani.
Nenhuma escola com o nome do professor.
Nenhum marco público que diga às novas gerações: “Aqui viveu um homem que dedicou sua vida à justiça social.”
Eu sinto vergonha.
O símbolo de uma geração
Genivan era o retrato de uma geração que acreditava que política era missão, não carreira. Ele não era apenas militante socialista. Era primavera. Era renovação. Era esperança que se recusava a morrer mesmo nos invernos mais duros.
Nascido na estação das flores, floresceu em sua cidade natal, irradiando compromisso em cada assembleia, em cada debate, em cada mobilização.
Como professor da rede estadual, não ensinava apenas conteúdos. Ensinava consciência. Mostrava que educação não é adestramento, é libertação.
Na APLB, sua postura era firme, combativa, mas profundamente humana. Ele entendia que a luta salarial era também luta por dignidade, por futuro, por horizonte.
No Fórum Sindical e Popular, sua presença era energia. Sua voz era ponte. Sua crença no coletivo era inabalável.
E então, naquele sábado, 26 de setembro de 2020, ele partiu.
E ficou o silêncio.
O abandono que dói mais que a derrota
A esquerda sempre falou de solidariedade. Sempre denunciou o individualismo. Sempre proclamou que ninguém luta sozinho.
Mas o que vemos quando um companheiro como Genivan não recebe sequer uma homenagem pública?
Vemos uma esquerda que valoriza os vivos — os que ocupam cargos, os que aparecem nas fotos, os que têm mandato.
E esquece os que construíram o chão onde esses mandatos pisam.
Isso não é apenas descuido.
É ruptura moral.
Um movimento que abandona seus mortos começa, lentamente, a perder sua própria alma.
O que significa uma praça?
Uma praça não é apenas concreto.
Uma escola com o nome de um professor não é apenas uma placa.
É pedagogia pública.
É memória coletiva.
É declaração de valores.
Quando uma cidade escolhe quem homenagear, ela escolhe que tipo de história quer contar às próximas gerações.
E quando não homenageia alguém como Genivan, ela também faz uma escolha — a escolha do esquecimento.
O coração que continua batendo
Genivan carregava no peito um verdadeiro “coração de estudante”. Mesmo quando assumiu papéis de liderança, nunca perdeu o brilho juvenil da utopia.
Ele acreditava no amanhã.
Ele acreditava na força do coletivo.
Ele acreditava que a primavera sempre volta.
E talvez volte.
Mas a primavera exige sementes.
E sementes precisam ser lembradas.
Hoje, o que me resta é saudade — e também uma cobrança.
Não uma cobrança rancorosa.
Mas ética.
A esquerda de Vitória da Conquista precisa reencontrar seu código de honra. Precisa lembrar que companheiro não é instrumento descartável. Que memória é compromisso. Que lealdade não termina no velório.
Porque deixar alguém para trás, mesmo depois da morte, é admitir que a luta virou conveniência.
E a luta de Genivan nunca foi conveniência.
Foi entrega.
Genivan, onde quer que esteja. Presente!
Enquanto houver primavera, enquanto houver gente que se recuse a esquecer, você continuará florescendo.
Mas que a cidade — e a esquerda — aprendam:
honra não é discurso. Honra é memória viva.
Padre Carlos





