Política e Resenha

Há algo de profundamente simbólico numa biruta de aeroporto.

 

Aquela peça simples, colorida, pendurada no alto de um mastro, que não fala — mas aponta. Não decide o vento, não o enfrenta, não o questiona. Apenas se inclina. Submissa às correntes invisíveis, dança conforme a pressão que a atinge. A biruta não tem projeto, tem direção momentânea.

E é impossível não lembrar de certos comportamentos políticos quando a observamos.

A política, em sua essência mais nobre, deveria ser bússola. Convicção. Norte definido mesmo sob tempestade. Mas, muitas vezes, transforma-se em biruta: gira ao sabor das conveniências, inclina-se conforme a força do vento eleitoral, negocia sua direção em troca de estabilidade momentânea.

Vitória da Conquista e Jequié hoje oferecem um contraste didático dessa metáfora.

A prefeita de Vitória da Conquista — com seu campo ideológico claro, goste-se ou não — não se comporta como biruta. Não é pragmática no sentido de flexibilizar convicções para ampliar alianças. Tem lado. Tem linha. Há quem critique a rigidez. Há quem admire a coerência. Mas, ao menos, há previsibilidade. Ela aponta sempre para o mesmo quadrante do mapa político.

Já o prefeito de Jequié, Zé Cocá, revela um movimento distinto.

Sua recente declaração — condicionando apoio eleitoral a compromissos concretos com obras estruturantes, como o aeroporto regional — traz à tona uma lógica mais pragmática. Ou mais mercantil, dependendo do ângulo de quem observa.

A frase é clara: apoio político está vinculado a contrapartidas objetivas.

Não se trata aqui de demonizar a busca por investimentos. É legítimo que um gestor municipal lute por infraestrutura, por crescimento regional, por um aeroporto que dinamize o Médio Rio de Contas. A pergunta que ecoa, porém, é outra: quando o apoio político se torna moeda de troca explícita, não estamos diante de uma biruta institucionalizada?

Se o vento sopra do Palácio de Ondina e há promessa de obras, inclina-se para lá.
Se sopra da oposição com a mesma promessa, inclina-se para cá.

Não é ideologia.
Não é projeto de Estado.
É cálculo.

E cálculo não é, necessariamente, virtude moral ou vício absoluto. É estratégia. Mas há um ponto delicado: quando a política se reduz à lógica do “toma lá, dá cá”, ela deixa de ser visão e passa a ser negociação permanente de sobrevivência.

A biruta cumpre seu papel: informa a direção do vento. Mas ela não define rotas de voo. Quem define é a torre de comando, são os pilotos, é o plano de voo previamente traçado.

O risco para a democracia é quando os pilotos passam a voar apenas segundo o vento imediato, sem plano consistente de médio e longo prazo.

Zé Cocá afirma que sua prioridade é garantir investimentos. Legítimo. Mas a interrogação que fica é: o apoio político é consequência de afinidade programática ou instrumento de pressão para obtenção de obras?

Há uma diferença sutil — e gigantesca — entre articulação política e barganha eleitoral.

Enquanto isso, Vitória da Conquista mantém uma linha ideológica firme. Pode ser inflexível. Pode perder oportunidades pragmáticas. Mas não gira conforme a pressão atmosférica.

No fim das contas, a biruta não é vilã. Ela apenas revela o vento. O problema começa quando os líderes escolhem ser birutas, e não bússolas.

A Bahia vive um momento em que o vento sopra forte. Há disputa, há projetos em confronto, há expectativas regionais legítimas. Mas a sociedade precisa decidir o que espera de seus gestores: coerência com convicções ou habilidade em negociar vantagens locais a qualquer custo.

Talvez o ideal fosse um equilíbrio raro: convicção com capacidade de diálogo, princípios com competência de articulação.

Porque aeroporto nenhum prospera se o plano de voo muda a cada rajada.

E a política, quando se transforma apenas em leitura de vento, deixa de ser projeto de futuro e vira meteorologia eleitoral.