Há momentos na vida pública brasileira em que o absurdo não apenas bate à porta — ele entra, senta no sofá, pede café e ainda exige manchete. O episódio mais recente envolve o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, citado em mensagens privadas trocadas entre o empresário Daniel Vorcaro e sua então noiva, Martha Graeff.
A revelação veio pela pena diligente do jornalista Tácio Lorran, em coluna publicada no portal Metrópoles. E pronto: temos o novo vírus político nacional.
Sim, senhoras e senhores: conversar com Vorcaro virou doença contagiosa.
Pelo padrão que alguns setores da imprensa e do submundo político parecem querer impor, o diagnóstico funciona assim:
— Falou com Vorcaro? Infectado.
— Encontrou Vorcaro? Condenado.
— Respira o mesmo ar que Vorcaro? Caso gravíssimo.
É a epidemiologia da malícia.
Vamos aos fatos, essa entidade que anda em falta em certos ambientes. Nas mensagens divulgadas, Vorcaro diz à noiva que iria encontrar Alexandre de Moraes “aqui perto de casa”. Dias depois, ao fazer uma videochamada, identifica um dos presentes como sendo o ministro.
Pronto. É isso.
Nenhum indício de irregularidade. Nenhuma evidência de favorecimento. Nenhum ato ilícito. Apenas a menção — numa conversa privada — de que duas pessoas adultas se encontraram.
Mas, no Brasil das narrativas delirantes, isso basta para alguns tentarem construir uma teoria conspiratória com a solidez intelectual de um castelo de cartas construído em dia de vendaval.
E aqui entra a pergunta inevitável: qual é exatamente o crime?
Ministros do Supremo são proibidos de encontrar pessoas? Estão em regime de clausura? Devem viver como monges cartuxos, em absoluto silêncio social, para não ferir a sensibilidade dos conspiracionistas de plantão?
Ora, façam-me o favor.
Se formos adotar esse critério, metade de Brasília terá de ser interditada pela vigilância sanitária da paranoia.
Porque a lógica implícita nesse tipo de “insinuação jornalística” é grotesca: basta um investigado mencionar o nome de alguém para que essa pessoa passe automaticamente a carregar uma suspeita.
Seguindo essa linha de raciocínio, se amanhã um estelionatário disser numa mensagem que tomou café olhando para o retrato de Rui Barbosa, alguém concluirá que o jurista participou do golpe.
É uma lógica que ofende o direito, a razão e até o senso de ridículo.
Mas há algo mais profundo aqui. Não se trata apenas de fofoca elevada à condição de manchete. Existe um esforço persistente de certos grupos — políticos, midiáticos e digitais — para tentar desgastar uma figura específica do Supremo Tribunal Federal.
E não é difícil entender por quê.
Alexandre de Moraes tornou-se um dos principais alvos daqueles que sonham com um país onde a lei seja opcional para quem grita mais alto. Desde os ataques golpistas ligados ao Ataques de 8 de janeiro de 2023 no Brasil, o ministro virou personagem central no enfrentamento de redes que apostam na desinformação como método político.
E quando não se consegue derrubar alguém pelos fatos, tenta-se criar sombras.
É o velho truque: não acuse diretamente — insinue.
Não prove — sugira.
Não demonstre — sopre a dúvida.
Assim nasce o jornalismo do cochicho.
A ironia é que o próprio material divulgado demonstra apenas uma banalidade da vida social: pessoas se encontram. Conversam. Visitam casas. Passam feriados.
É chocante, eu sei. Talvez seja preciso convocar uma CPI das conversas.
No fundo, o que certos setores parecem desejar é transformar qualquer interação humana em prova de conspiração. É a versão política do “meu primo me contou”.
Mas o Estado de Direito não funciona assim. Nem deveria.
Um ministro do Supremo não pode ser transformado em suspeito por aparecer no WhatsApp de alguém. Caso contrário, bastaria a qualquer investigado espalhar nomes ao vento para criar uma crise institucional em cadeia.
Seria o terrorismo da citação.
O Brasil precisa decidir se quer viver num país regido por provas ou por prints de conversas privadas interpretadas por comentaristas de ocasião.
Porque, se a regra passar a ser esta — “falou com Vorcaro, está condenado” —, convém preparar a quarentena institucional.
E talvez também um novo Ministério: o da Epidemiologia das Conversas.
Autor: Padre Carlos.





