Por Padre Carlos
No Brasil político, a verdade raramente chega sozinha. Ela costuma vir cercada de versões, suspeitas e narrativas cuidadosamente construídas. É nesse terreno nebuloso que, mais uma vez, tentam arrastar a Bahia para um escândalo que, até agora, não possui qualquer vínculo comprovado com o estado: o caso envolvendo o Banco Master.
O episódio revela muito menos sobre a Bahia e muito mais sobre o funcionamento da política brasileira em tempos de polarização e disputa eleitoral.
Há uma tentativa clara — e lamentável — de associar lideranças baianas ao colapso de uma instituição financeira que, até o momento, não aparece em nenhum relatório da Polícia Federal conectado ao governo da Bahia ou às decisões tomadas durante a gestão estadual. Ainda assim, o esforço de alguns setores políticos é insistente: repetir uma acusação até que ela pareça plausível.
Mas política não deveria ser um tribunal de boatos.
O palco político e o palco da investigação
O senador Jaques Wagner fez uma distinção importante ao responder às acusações: existe o palco político e existe o palco da investigação.
A CPMI, como tantas vezes ocorre no Congresso, pode se transformar em arena de disputa narrativa. Ali, discursos inflamados, vídeos editados e interpretações convenientes ganham destaque. Não é necessariamente o lugar onde os fatos são depurados com rigor técnico.
Esse papel cabe a instituições como a Polícia Federal.
E até agora, segundo Wagner, não existe qualquer relatório da Polícia Federal que vincule a Bahia, a venda da Cesta do Povo ou o governo estadual ao escândalo do Banco Master.
Este ponto é fundamental e precisa ser repetido com a mesma intensidade com que se espalham as acusações.
A história real da Cesta do Povo
A tentativa de conectar a Bahia ao caso ignora a cronologia dos acontecimentos.
Quando Wagner assumiu o governo baiano, herdou uma estrutura estatal peculiar: uma rede pública de supermercados chamada Cesta do Povo, criada durante governos anteriores. O modelo, além de anacrônico, era financeiramente insustentável. O sistema acumulava prejuízos anuais entre R$ 60 milhões e R$ 80 milhões.
O governo decidiu então vender a rede.
Dois leilões foram realizados na Bolsa de São Paulo. Ambos fracassaram — não apareceu comprador. O motivo era simples: tratava-se de um ativo pesado, caro e pouco atraente para investidores.
Somente depois surgiu um interessado: o empresário Augusto Lima, que apareceu representando um fundo de investimento espanhol disposto a assumir a operação.
A negociação ocorreu nesse contexto.
O governo vendeu a rede e encerrou ali sua participação.
Não havia Banco Master no cenário.
Não havia Banco Máxima.
Não havia sequer a figura de Daniel Vorcaro no processo.
Esses elementos surgiriam mais de um ano depois.
O que veio depois não é responsabilidade do governo
Após adquirir a Cesta do Povo, o empresário responsável pela operação passou a buscar instituições financeiras que financiassem um sistema de crédito vinculado ao chamado Cartão Cesta, utilizado por servidores públicos.
Alguns bancos recusaram participar da operação.
Posteriormente, o Banco Máxima, ligado a Daniel Vorcaro, aceitou entrar no negócio.
Segundo registros do próprio Banco Central, a integração entre a operação financeira e o sistema do cartão ocorreu em outubro de 2019 — mais de um ano após a venda realizada pelo governo baiano.
Ou seja: quando o sistema financeiro entrou na história, o governo da Bahia já não fazia parte dela.
Essa sequência factual desmonta a tentativa de ligação direta entre o estado e o colapso posterior da instituição financeira.
O método da suspeita
Mesmo assim, alguns setores insistem em manter a narrativa.
Não por falta de informação, mas por estratégia política.
Estamos em um período pré-eleitoral. O próprio senador Rogério Marinho, citado no debate, já se apresentou como coordenador político da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em cenários assim, cada episódio é transformado em munição retórica.
O método é conhecido: cria-se uma associação indireta, reproduz-se um vídeo, levanta-se uma dúvida, e pronto — nasce uma suspeita pública.
Mesmo que ela não sobreviva ao teste dos fatos.
A Bahia no centro da política nacional
Talvez o verdadeiro motivo para esse tipo de ataque esteja em outro lugar.
A Bahia, nos últimos anos, consolidou-se como um dos principais polos de liderança política do país. Figuras como Jaques Wagner, Rui Costa e o atual governador Jerônimo Rodrigues ocupam posições estratégicas no tabuleiro nacional.
Quando um estado assume protagonismo, inevitavelmente também se torna alvo.
A política brasileira sempre foi generosa em fabricar versões convenientes quando determinadas lideranças ganham relevância.
Entre a narrativa e a verdade
No fim das contas, a pergunta feita por Wagner continua sem resposta:
Existe algum relatório da Polícia Federal que conecte a Bahia ao escândalo do Banco Master?
Até agora, não.
Sem esse elemento, qualquer tentativa de associação não passa de especulação política.
E democracia séria precisa de algo mais sólido do que especulações.
Precisa de fatos.
Enquanto eles não aparecerem, tentar colocar no colo da Bahia uma crise bancária que surgiu anos depois de uma operação administrativa legítima não é investigação.
É apenas narrativa.
E narrativas, quando não sustentadas pela verdade, acabam sempre desmoronando.





