
Por Padre Carlos
Há histórias que não estão apenas nos livros.
Elas vivem nos corredores, nos gestos, nos sons que atravessam o tempo.
Quem entra na Câmara Municipal de Vitória da Conquista talvez perceba apenas a solenidade do prédio, o brilho discreto do mármore, o silêncio respeitoso do plenário. Mas, para quem escuta com atenção, há algo mais ali: um eco antigo, persistente, quase simbólico. O eco de passos que mudaram a história da política conquistense.
Por décadas, aquele chão ouviu o som de sapatos masculinos — pesados, firmes, convencidos de que o poder era um território naturalmente reservado aos homens. Era o retrato de uma época em que a representatividade feminina na política parecia uma ideia distante, quase impossível.
Até que, em 1958, algo mudou.
Quando Geny Fernandes de Oliveira Rosa — a inesquecível Dona Zaza — ocupou uma cadeira na Câmara Municipal, não foi apenas uma eleição. Foi um gesto histórico. Um pequeno terremoto simbólico. Como uma raiz paciente que rompe o asfalto, Dona Zaza abriu uma fenda no muro invisível que separava as mulheres do poder político local.
Naquele instante, Vitória da Conquista começava a escrever uma nova página da sua própria democracia.
O Bordado da História Feminina no Legislativo
A trajetória das mulheres na Câmara Municipal de Vitória da Conquista se parece com um bordado antigo.
Quem observa o avesso vê os nós: resistências, preconceitos, disputas silenciosas, portas que demoraram a se abrir. Mas quem olha a face do tecido percebe algo muito maior — uma imagem de perseverança que ajudou a redefinir o próprio significado da política local.
Depois de Dona Zaza, outras mulheres continuaram puxando esse fio histórico.
Quando Ilza Viana Matos se tornou a primeira mulher a presidir a Câmara, ela não apenas ocupou um cargo institucional. Ela provou algo essencial: que a sensibilidade feminina não é um ornamento da política — é uma ferramenta poderosa de liderança.
A política, afinal, não se constrói apenas com discursos duros ou cálculos estratégicos. Ela também se faz com escuta, percepção social e capacidade de enxergar as necessidades invisíveis da população.
E foi assim que outros nomes foram consolidando essa presença feminina no Legislativo conquistense:
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Helita Figueira, com sua atuação marcante;
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Carmen Lúcia, ampliando o debate público;
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Lygia Matos, fortalecendo a presença das mulheres no parlamento municipal;
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Lúcia Rocha, recordista de mandatos e símbolo de persistência política;
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Irma Lemos, cuja trajetória atravessa diferentes momentos da política local.
Mas há um marco que merece destaque especial na história da representatividade política em Vitória da Conquista.
Quando Nildma Ribeiro foi eleita vereadora, ela se tornou a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal. Não foi apenas uma vitória eleitoral — foi um passo gigantesco na ampliação da democracia local.
Porque a democracia verdadeira só acontece quando todas as vozes têm espaço.
O Presente que Constrói o Futuro
Hoje, o bastão dessa história está nas mãos de uma nova geração de lideranças femininas.
As vereadoras Márcia Viviane, Léia de Quinho, Dra. Lara Fernandes, Cris Rocha e Gabriela Garrido representam não apenas continuidade, mas renovação.
Cada uma, à sua maneira, atua em áreas essenciais para a vida da cidade — saúde pública, infraestrutura urbana, políticas sociais, educação e defesa dos direitos da população.
E isso revela algo que já deveria ser óbvio, mas que a história demorou a reconhecer:
“assunto de mulher” é qualquer assunto que diz respeito à vida da cidade.
Creches, hospitais, transporte público, segurança, oportunidades de trabalho — todos esses temas ganham novas perspectivas quando há diversidade de olhares dentro do parlamento.
A presença feminina no Legislativo municipal não é um detalhe simbólico. É um elemento essencial para que as decisões públicas reflitam a complexidade real da sociedade.
Por Que Essa História Importa?
Alguém poderia perguntar, com certa distância:
“Mas o que isso muda na minha vida?”
Muda mais do que parece.
Quando mulheres ocupam espaços de decisão política, a pauta pública se amplia. Questões que antes eram ignoradas passam a ganhar voz. Problemas cotidianos — como o cuidado com a infância, a saúde das famílias, a segurança nos bairros — deixam de ser invisíveis.
A política ganha densidade humana.
Por isso, a história dessas pioneiras não é apenas uma memória institucional. Ela é parte da própria evolução democrática de Vitória da Conquista, uma das cidades mais importantes do sudoeste baiano.
Um Chamado ao Futuro
Nesta Semana da Mulher, lembrar dessas trajetórias é mais do que um gesto simbólico. É um convite à reflexão coletiva.
O poder político não pode ser um clube fechado.
Ele precisa ser uma praça aberta.
Vitória da Conquista é uma cidade marcada pela força do seu povo. E essa força também é feminina. Está nas professoras, nas médicas, nas trabalhadoras do comércio, nas mães que sustentam famílias inteiras e nas jovens que começam a descobrir que a política também pode ser o seu caminho.
Talvez, neste exato momento, alguma menina esteja visitando o plenário da Câmara pela primeira vez.
Ela pode olhar para aquelas cadeiras e pensar que ali estão apenas móveis formais, símbolos distantes de um poder inacessível.
Mas não.
Ali também estão espelhos.
Espelhos que refletem a coragem de Dona Zaza, a liderança de Ilza Viana Matos, a persistência de Lúcia Rocha, a representatividade histórica de Nildma Ribeiro e o trabalho das vereadoras que hoje continuam escrevendo essa história.
A política de uma cidade não se constrói apenas com leis.
Ela se constrói com coragem.
E o eco daquele primeiro salto no mármore ainda ressoa pelos corredores da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, lembrando a todos nós que a democracia é um caminho — e que cada geração tem o dever de avançar um pouco mais.
A pergunta que fica no ar é simples, mas poderosa:
quem será a próxima mulher a fazer história em Conquista?




