Política e Resenha

A Guerra Fria que Ameaça a Hegemonia do PT na Bahia

 

Durante quase duas décadas, a política baiana foi marcada por uma espécie de estabilidade rara no cenário brasileiro. Desde 2006, quando Jaques Wagner venceu as eleições e iniciou um novo ciclo político no estado, o Partido dos Trabalhadores construiu uma hegemonia aparentemente sólida. Essa estrutura foi consolidada posteriormente por Rui Costa e herdada pelo atual governador Jerônimo Rodrigues.

Mas a política, como a história ensina, raramente é um terreno de permanências eternas. O que parecia um edifício robusto começa agora a apresentar fissuras visíveis. E não são rachaduras provocadas por adversários externos — são fraturas internas, profundas, alimentadas por disputas de poder dentro do próprio grupo que governa a Bahia.

O que está em curso no PT baiano não é apenas uma divergência política. Trata-se de uma espécie de guerra fria interna, silenciosa nos palanques, mas ruidosa nos bastidores.

A disputa pelo controle do futuro

Nos eventos públicos, as lideranças sorriem, dividem o palco e repetem discursos de unidade. Mas nos corredores da política, onde as decisões realmente são tomadas, o clima é outro.

De um lado está o grupo ligado ao ministro da Casa Civil, Rui Costa — hoje um dos nomes mais influentes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro, a corrente histórica liderada pelo senador Jaques Wagner, considerado o arquiteto original da ascensão petista na Bahia.

A divergência tem endereço claro: a composição da chapa para 2026, especialmente a vaga de vice-governador.

Rui Costa trabalha intensamente para retirar o Movimento Democrático Brasileiro da posição estratégica e abrir espaço para o Avante. Já Wagner resiste com firmeza, defendendo a permanência do atual vice, Geraldo Júnior, e a manutenção da aliança histórica com o MDB.

Essa disputa não é apenas sobre nomes. É sobre controle político.

Quem define o vice define a correlação de forças dentro do governo, influencia a montagem das chapas proporcionais e, principalmente, estabelece quem herdará o capital político do grupo no futuro.

Trackings e o medo da derrota

Como acontece em toda guerra política moderna, as batalhas não são travadas apenas nos palanques. Elas também acontecem nos computadores dos marqueteiros.

Pesquisas internas — os chamados trackings — têm circulado entre as lideranças com números preocupantes. Segundo relatos de bastidores, esses levantamentos indicariam um cenário de desgaste do governo e dificuldades eleitorais para o grupo governista.

Na política, poucas coisas são mais perigosas que o medo da derrota.

Quando ele aparece, alianças começam a ser questionadas, fidelidades são revistas e antigas disputas voltam à superfície.

É exatamente isso que está acontecendo.

O episódio que revelou o clima de guerra

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o nível de tensão dentro da base governista, elas desapareceram com um episódio que beira o tragicômico.

Em um grupo de WhatsApp, o vice-governador Geraldo Júnior acabou enviando, por engano, uma instrução clara: “manda viralizar”.

A mensagem fazia referência a críticas dirigidas ao ministro Rui Costa. O que deveria ser uma estratégia discreta de contra-ataque acabou se transformando em prova pública da crise interna.

Na política, vazamentos acidentais costumam revelar mais do que mil discursos oficiais.

E o que esse episódio mostrou foi um governo onde até o vice-governador estaria envolvido em uma disputa direta contra um dos principais líderes do grupo.

Tubarões no mesmo aquário

Enquanto o PT tenta administrar sua própria turbulência, velhos personagens da política baiana começam a farejar oportunidade.

Entre eles está Geddel Vieira Lima, figura central do MDB baiano, que já se movimenta publicamente em defesa de Wagner e do senador Angelo Coronel.

O recado é claro: isolar Rui Costa dentro da base aliada.

A situação se torna ainda mais complexa porque Rui mantém forte prestígio junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Isso cria uma equação delicada: a disputa não envolve apenas lideranças estaduais, mas também relações diretas com o Palácio do Planalto.

O risco de implosão

O PT da Bahia sempre se orgulhou de uma característica rara na política brasileira: capacidade de articulação e disciplina interna.

Foi essa engenharia política que permitiu ao partido derrotar estruturas históricas de poder no estado e manter uma hegemonia duradoura.

Mas toda hegemonia carrega dentro de si o germe da própria crise.

Quando um grupo permanece muito tempo no poder, as disputas deixam de ser contra adversários externos e passam a acontecer entre os próprios aliados.

Se a atual guerra fria continuar se aprofundando, o risco é claro: o grupo governista pode chegar às eleições dividido, com candidaturas enfraquecidas e uma base política fragmentada.

Na política, adversários não precisam ser fortes quando o governo decide brigar consigo mesmo.

O parquinho em chamas

Há uma expressão que circula hoje nos bastidores de Salvador: “o parquinho está pegando fogo”.

A frase pode parecer caricata, mas traduz bem o momento atual da política baiana.

Se o PT não conseguir reconstruir rapidamente sua unidade interna, o que hoje é apenas uma disputa de bastidores pode se transformar em algo muito mais sério: o fim de um ciclo político que marcou profundamente a história recente da Bahia.

E, como ensina a velha máxima da política, quando tubarões começam a brigar dentro do mesmo aquário, quem assiste de fora prepara o banquete.

Porque, às vezes, o maior adversário de um projeto político não está na oposição.

Está dentro de casa.

Padre Carlos