Política e Resenha

O Banqueiro, o Polvo e a Toga

 

Quando a delação ameaça revelar que o verdadeiro chefe usa mandato

Há argumentos jurídicos que merecem respeito. Há teses que podem até ser discutidas com seriedade. E há também aquilo que só pode ser classificado como o argumento mais exótico da temporada.

Segundo alguns defensores da ortodoxia seletiva, o banqueiro Daniel Vorcaro não poderia firmar acordo de delação premiada porque seria, pasmem, “o chefe da organização criminosa”.

Perdão, mas chefe de quê, exatamente?

Da planilha?
Do fluxo de caixa?
Do Excel que organiza depósitos suspeitos e transferências oportunas?

Pode até ser. Mas daí a transformar um operador financeiro em o topo da pirâmide política de um esquema bilionário é uma ginástica intelectual que faria inveja a qualquer contorcionista do Cirque du Soleil.

Porque convém lembrar um detalhe que a narrativa conveniente prefere esquecer: bancos não fazem política. Políticos fazem política.

E esquemas dessa magnitude não se sustentam apenas com dinheiro.
Eles precisam de proteção institucional.

Precisam de quem articule nos bastidores.
Precisam de quem abra as portas do poder.
Precisam de quem redija projetos de lei sob medida.

E, sobretudo, precisam de quem garanta que o dinheiro público continue irrigando o sistema.


Quando o crime usa gravata

Vamos combinar uma coisa, caro leitor, antes que a névoa da narrativa conveniente engula mais este episódio da nossa vasta história de safadezas institucionalizadas.

Um banqueiro de segunda linha — aliás, de terceira, como já observou quem entende do riscado — não comanda sozinho uma operação bilionária que envolve governadores, senadores, diretores de Banco Central e uma fatia generosa do chamado Centrão.

Isso não é banco.

Isso é um ecossistema.

Um polvo, para ser mais preciso.

E polvo, meus caros, não tem um tentáculo funcionando sozinho.
Há sempre uma cabeça coordenando os movimentos.

Mas o Brasil prefere o espetáculo.

Prende-se o banqueiro.
Faz-se a coletiva de imprensa.
Multiplicam-se as manchetes.

E o país respira aliviado com a impressão reconfortante de que a Justiça, de vez em quando, aparece para trabalhar.

Enquanto isso, os demais tentáculos seguem tranquilos sua rotina:

— almoços discretos no Lago Sul
— reuniões em gabinetes refrigerados
— projetos de lei com nomes técnicos e aparência inocente.

Entre eles, propostas simpáticas como o chamado “Projeto Master”, que amplia o teto do Fundo Garantidor de Crédito — o FGC — para assegurar que o dinheiro do trabalhador sirva como colchão para aventuras financeiras de alto risco.

Que bondade.

Que patriotismo.


A tese da autopreservação

É nesse ponto que surge a tese jurídica que tenta transformar lógica em ficção.

Vorcaro não poderia delatar porque seria o chefe da organização.

Ora, convenhamos.

Um banqueiro de terceira linha que articulou interesses com governadores, senadores e o Centrão seria o chefe absoluto da engrenagem?

O chefe de quê, exatamente?

Da parte financeira, talvez.

Mas quem comandava a articulação política?

Quem garantia os aportes de dinheiro público?

Quem apresentava os projetos de lei sob medida?

Quem protegia o esquema dentro das instituições?

Negar uma delação que pode implodir o sistema sob o argumento de que o operador financeiro é o topo da pirâmide não é jurisprudência.

É autopreservação com toga.


A milícia de gravata

O que temos diante de nós não é a velha história do banqueiro ganancioso que corrompeu políticos ingênuos.

Essa narrativa é infantil.

O que temos é uma simbiose.

Uma organização criminosa que:

— não usa passamontanhas, usa terno
— não assalta banco, é o banco
— não foge da polícia, financia quem nomeia a polícia

É uma espécie de milícia de gravata, onde o chefe da favela e o oficial do quartel são partes da mesma engrenagem — apenas com endereços diferentes.

E é justamente por isso que impedir uma delação ampla seria um erro monumental.

Seria permitir que governadores, senadores e deputados que se alimentaram desse sistema saíssem pela porta dos fundos, enquanto a câmera permanece apontada para a entrada principal.


O velho truque

Nada disso é novo.

Na verdade, é um truque antigo.

Escolhe-se um personagem visível.
Transforma-se esse personagem no centro do escândalo.
E, enquanto a plateia olha para ele, o restante da engrenagem continua funcionando.

Não é sofisticado.

Não é elegante.

Mas funciona.

Funciona porque sempre haverá alguém disposto a colaborar com o roteiro — seja por ingenuidade, seja por conveniência, seja por simples instinto de sobrevivência dentro do sistema.

No fim das contas, o risco não é que um banqueiro fale demais.

O verdadeiro risco é que ele fale a verdade inteira.

E, nesse país, como sabemos, a verdade completa costuma ser mais perigosa do que o próprio crime.


Padre Carlos
Articulista do blog Política e Resenha