
Por Padre Carlos
Ah, Brasília… essa cidade onde até as estátuas parecem escutar conversas políticas e onde cada café servido nos corredores do poder pode carregar mais tensão do que uma reunião de conselho de guerra.
Foi justamente ali que algo inusitado aconteceu.
Quando os advogados de defesa de Vorcaro decidiram apresentar suas teses jurídicas, ninguém imaginava que, em algum lugar do além, Nicolau Maquiavel sentiria um leve tremor no seu túmulo em Florença. O velho florentino, curioso por natureza e com um faro político que atravessa séculos, resolveu aceitar o convite implícito.
E assim — dizem as más línguas da política — o autor de O Príncipe desembarcou em Brasília.
Confuso, mas intrigado.
Afinal, ele queria conferir se seus ensinamentos estavam sendo aplicados corretamente ou se tinham virado uma espécie de manual de autoajuda para escândalos contemporâneos.
Logo ao chegar, Maquiavel caminhou pela Praça dos Três Poderes, observando aquele tabuleiro institucional que faria qualquer estrategista renascentista coçar a barba. Diferente da Itália do século XVI, onde o poder girava em torno de príncipes, duques e papas, Brasília parecia um xadrez com peças demais e regras inventadas no meio do jogo.
Ali havia Congresso, Supremo, Executivo, partidos, bancadas, lobbies, influencers políticos, analistas de bastidores e — novidade absoluta para o velho florentino — algo chamado emendas secretas.
— Barões do orçamento, murmurou ele, anotando mentalmente.
— Interessante… muito interessante.
Mas o verdadeiro espetáculo ainda estava por vir.
Maquiavel foi rapidamente informado sobre o chamado caso Master, que já ocupava manchetes, gabinetes e conversas de elevador em Brasília.
Os advogados de Vorcaro, com toda a formalidade jurídica, declararam que negavam categoricamente as acusações, reafirmavam confiança no devido processo legal e acreditavam que tudo seria esclarecido.
Uma defesa legítima, sem dúvida.
O problema é que, paralelamente, surgiam documentos, investigações, suspeitas de organização criminosa, danos bilionários e ameaça às investigações, segundo decisão mencionada pelo ministro André Mendonça.
Maquiavel ouviu tudo atentamente.
Depois coçou o queixo.
E soltou uma frase que deixou um assessor imaginário perplexo:
— Na minha época, quando alguém precisava de uma estratégia ousada, pelo menos tentava que ela fosse plausível.
A opinião pública, naturalmente, também estava atônita. Nas redes sociais, nos cafés políticos e nas redações de jornal, muitos se perguntavam se aquilo era uma defesa jurídica ou um roteiro rejeitado por uma série de comédia política.
Enquanto isso, o florentino continuava seu passeio.
Observou deputados falando de bilhões com a naturalidade de quem comenta o preço do pão. Viu ministros discutindo institucionalidade com a gravidade de teólogos medievais. Escutou parlamentares citando “governabilidade”, palavra que para ele soava como um primo distante da antiga razão de Estado.
— Meus discípulos brasileiros são muito criativos, pensou.
Mas houve um momento em que até Maquiavel arregalou os olhos.
No aeroporto, antes de retornar à Europa, ele tomou conhecimento de três notícias que fariam qualquer estrategista político pedir férias:
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A prisão de Vorcaro.
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A morte misteriosa de um personagem apelidado de Sicário.
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E a suposta existência de uma milícia privada chamada “A Turma”, que, segundo relatos, monitoraria adversários, autoridades e jornalistas.
Nesse instante, Maquiavel ficou pálido.
Não porque fosse um moralista — ele definitivamente não era.
Mas porque percebeu um perigo clássico da política: quando a astúcia vira descontrole.
— Uma coisa é estratégia, murmurou ele.
— Outra coisa é transformar a política num faroeste administrativo.
Também lhe contaram, de passagem, sobre um cunhado, um pastor em Alagoinhas, rumores, investigações e a possibilidade de uma CPMI surgindo no horizonte.
Foi o suficiente.
O velho florentino cancelou discretamente seus planos de seguir para Salvador, onde pensava passar cinco dias num resort observando a política tropical com um drinque na mão.
Preferiu voltar para Florença.
Antes de embarcar, no entanto, deixou uma última reflexão escrita num guardanapo do aeroporto de Brasília:
“Eu disse que, às vezes, os fins justificam os meios.
Nunca disse que o crime compensa — muito menos que a trapalhada compensa.”
E assim terminou a breve visita de Maquiavel ao Brasil.
Ele voltou para o seu século XVI com a impressão de que, em Brasília, há muitos príncipes — mas poucos estrategistas.
E talvez tenha sido melhor assim.
Porque, se Maquiavel resolvesse mesmo ficar por aqui, é possível que terminasse convocado para depor…
…numa CPMI do Renascimento aplicada ao caso Master.




