
Há acontecimentos históricos que não chegam apenas como notícia. Eles entram pela porta da memória e se instalam dentro da gente, como se pedissem um julgamento íntimo. Foi assim comigo quando o mundo assistiu à queda do Muro de Berlim.
Lembro-me perfeitamente da sensação estranha que tomou conta de mim naquele momento. Confesso: a primeira reação foi de alegria. Afinal, ali desmoronava um símbolo gigantesco da divisão do mundo, um monumento de concreto que separava famílias, sonhos e destinos. Era o fim de uma era marcada pelo medo nuclear e pela tensão permanente da Guerra Fria.
Mas a alegria não veio sozinha.
Logo depois, como uma sombra que atravessa o pensamento, veio a lembrança de homens que haviam dedicado suas vidas a um ideal. E não posso deixar de citar aqui o velho Luiz Carlos Prestes, figura que marcou profundamente a história política do Brasil. Naquele instante, pensei no que significava ver ruir, junto com aquele muro, tantas utopias que haviam mobilizado gerações inteiras.
Para muitos militantes da esquerda, aquilo não era apenas um evento geopolítico. Era o colapso simbólico de um sonho.
Enquanto o mundo tentava entender o que estava acontecendo, o Brasil também vivia sua própria travessia histórica. Depois de mais de duas décadas de ditadura militar, o país voltava a experimentar o sabor da democracia. Em 1989, os brasileiros voltaram às urnas para escolher diretamente seu presidente da República — algo que não acontecia desde 1960.
Naquele cenário carregado de esperança e incerteza, dois projetos de país chegaram ao segundo turno: de um lado, Fernando Collor de Mello, da coligação liderada pelo PRN; do outro, Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do campo progressista e líder da coligação encabeçada pelo Partido dos Trabalhadores.
Era como se o Brasil estivesse, finalmente, aprendendo a respirar depois de longos anos de silêncio.
Confesso que tudo aquilo aconteceu rápido demais para que eu pudesse organizar as ideias. O mundo mudava diante de nossos olhos. Velhas certezas ideológicas se desfaziam como areia entre os dedos, enquanto novas esperanças surgiam no horizonte político brasileiro.
Foi nesse contexto que vivi uma cena que jamais saiu da minha memória.
Estava no Rio de Janeiro, na histórica Candelária, em um grande comício de Lula durante a campanha de 1989. A multidão era imensa. Bandeiras vermelhas tremulavam no vento quente da noite carioca. Havia uma mistura de festa, esperança e emoção no ar.
E então aconteceu algo inesperado.
Para minha surpresa, quem subiu ao palanque foi o velho Luiz Carlos Prestes, já frágil pelo peso da idade, mas ainda carregando nos olhos aquela chama que atravessou décadas de lutas e perseguições.
Quando ele começou a falar, a multidão se transformou.
O silêncio tomou conta da praça. Não era apenas respeito. Era quase reverência.
Ali estava o homem que Jorge Amado havia chamado de “Cavaleiro da Esperança”. O mesmo homem que havia atravessado o Brasil na lendária Coluna Prestes, percorrendo mais de 35 mil quilômetros a cavalo e a pé, desafiando o poder da República Velha e tornando-se um símbolo de resistência política.
Aquela coluna, iniciada em 1924 no interior do Rio Grande do Sul, cruzou sertões, rios e montanhas durante dois anos. Nunca foi derrotada militarmente. Foi, antes de tudo, um gesto épico de inconformismo contra um país dominado por oligarquias.
Depois vieram outras batalhas.
Prestes aderiu ao comunismo, estudou na União Soviética, conheceu sua companheira Olga Benário, militante alemã que dividiria com ele não apenas a vida, mas também o destino trágico da história.
Presos após a fracassada insurreição de 1935, viveram um dos episódios mais dramáticos da política brasileira. Olga, grávida, foi deportada para a Alemanha nazista pelo governo Vargas. Terminaria seus dias em uma câmara de gás.
Prestes passaria anos na prisão.
Anos que não foram capazes de quebrar sua convicção.
Quando saiu da cadeia, em 1945, foi eleito senador pelo Partido Comunista Brasileiro com a maior votação do país até então. Mas a democracia brasileira, ainda frágil, voltaria a expulsá-lo da legalidade dois anos depois, quando o PCB foi novamente proibido.
Mesmo assim, ele seguiu lutando.
Sobreviveu à clandestinidade, à perseguição política e ao exílio após o golpe militar de 1964. Só retornaria ao Brasil em 1979, com a anistia. Um homem moldado pelas tempestades do século XX.
Por isso, ao vê-lo naquele palanque na Candelária, cercado por jovens militantes e bandeiras vermelhas, tive a sensação de assistir a um encontro entre tempos históricos diferentes.
Ali estava um homem que havia atravessado quase todo o século.
No dia 7 de março de 1990, o Cavaleiro da Esperança fez sua última viagem.
Luiz Carlos Prestes morreu no Rio de Janeiro. Seu enterro foi acompanhado por uma multidão que queria prestar homenagem não apenas a um líder político, mas a um personagem que havia se tornado parte da memória do país.
Curiosamente, naquele mesmo dia, a Justiça Eleitoral concedia o registro oficial ao Partido Comunista Brasileiro, a legenda pela qual Prestes lutara durante grande parte de sua vida.
Era como se a história tivesse decidido fazer uma última reverência ao velho revolucionário.
A morte chegou, mas a esperança — essa velha companheira da humanidade — continuou caminhando.
Talvez essa seja a maior lição que Prestes nos deixou.
Os sistemas políticos passam. As ideologias se transformam. Muros caem.
Mas os sonhos que movem os seres humanos — esses continuam atravessando o tempo.
E talvez seja justamente por isso que, décadas depois, ainda nos lembramos daquele velho cavaleiro que acreditava, teimosamente, que o amanhã poderia ser melhor que o presente.
Porque, no fundo, todos nós precisamos de alguma esperança para continuar marchando.
Padre Carlos




