Política e Resenha

ARTIGO – O DIA EM QUE O JORNALISMO PODE TROCAR O PRÊMIO ESSO PELO “PRÊMIO PAPUDA”

 

 

Padre Carlos

 

No Brasil, às vezes a realidade tem um talento raro: ela consegue transformar ironia em manchete e manchete em piada pronta.

Agora mesmo surgiu a notícia de que os colunistas Lauro Jardim e Malu Gaspar estariam entre os “merecedores” do tradicional Prêmio Esso de Reportagem de 2026. A sugestão partiu do jornalista Euler de França Belém, em editorial no Jornal Opção, onde elogia o trabalho investigativo da dupla nas reportagens sobre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Até aí, tudo dentro do roteiro clássico do jornalismo: repórteres investigam, publicam, incomodam poderosos e eventualmente recebem prêmios.

O problema começa quando o roteiro deixa de parecer jornalismo investigativo e passa a lembrar roteiro de série policial — e não necessariamente do lado heroico da história.

Porque existe um detalhe que não pode ser varrido para debaixo do tapete da redação: há suspeitas sérias envolvendo a forma como determinadas informações vieram à tona. Informações que, segundo relatos, estavam sob sigilo.

E aqui mora o ponto central.

Se — repito, se — ficar comprovado que houve compra de informação sigilosa, estamos diante de algo que não é exatamente jornalismo investigativo. Estamos diante de um possível crime.

E crime, por definição, não costuma ser premiado em cerimônias elegantes com discursos emocionados e taças de espumante.

Crime costuma ser julgado em tribunal.

É uma distinção básica, mas aparentemente necessária de ser lembrada.

O Prêmio Esso sempre foi apresentado como um símbolo de excelência jornalística no Brasil. Ele representa rigor investigativo, ética profissional e compromisso com a verdade. Não foi criado para consagrar vazamentos comprados, nem para transformar material sob sigilo em produto de mercado.

Caso contrário, a lógica ficaria curiosa.

Imagine o cenário: alguém viola um segredo protegido pela lei, alguém paga por essa informação, a notícia explode nas manchetes e, ao final do processo, o sistema resolve entregar um troféu.

Seria uma inovação curiosa na história da imprensa.

Algo como criar uma nova categoria:

“Melhor Aquisição de Informação Sob Sigilo do Ano”.

Mas há um pequeno detalhe jurídico que estraga a festa.

Se as suspeitas forem confirmadas — e isso cabe às investigações determinar — o prêmio em questão pode mudar de nome. E também de endereço.

Não seria mais o Prêmio Esso.

Seria algo muito mais modesto e menos glamouroso.

Talvez o “Prêmio Papuda de Reportagem Investigada”.

Porque uma democracia saudável precisa de jornalismo forte, independente e corajoso. Mas precisa também de jornalismo ético.

Sem ética, a reportagem vira arma política.

Sem ética, o vazamento vira negócio.

Sem ética, a notícia deixa de ser informação e passa a ser mercadoria.

E quando a imprensa começa a premiar aquilo que deveria investigar, algo muito errado está acontecendo.

A história do jornalismo brasileiro já teve grandes repórteres, grandes furos e grandes prêmios.

Seria uma pena vê-la também inaugurando uma nova tradição:

A de transformar suspeita criminal em medalha de mérito.

Porque, no fim das contas, existe uma regra simples que nem precisa de manual de redação:

Jornalismo pode ganhar prêmio.

Crime não.