Política e Resenha

ARTIGO — EU CHORO PELO IRÃ, SIM

 

(Padre Carlos)

Há editoriais que informam. Há editoriais que interpretam o mundo. E há aqueles que revelam, sem nenhum pudor, o grau de desumanização a que uma parte da consciência ocidental chegou.

Quando li o título — “Ninguém vai chorar pelo Irã” — confesso que senti um frio na espinha. Não pelo Irã apenas. Mas pela humanidade.

Porque eu choro.

Choro quando vejo imagens de crianças mortas sob escombros. Choro quando a televisão mostra mochilas escolares cobertas de poeira e sangue. Choro quando uma mãe grita sobre o corpo de um filho que jamais voltará para casa.

Choro porque ainda sou humano.

E, talvez mais grave para alguns editorialistas de guerra, choro porque sou cristão.

O cristianismo — aquele que nasceu num estábulo e terminou numa cruz — nunca autorizou ninguém a celebrar bombardeios. Nunca ensinou que a morte de inocentes pode ser tratada como efeito colateral aceitável de uma “clareza moral”.

Mas eis que surge um editorial elegante, publicado por um dos jornais mais tradicionais do Brasil, afirmando que ninguém chorará pelo Irã.

Ninguém?

Talvez ninguém nas salas refrigeradas onde geopolítica se discute como se fosse uma partida de xadrez. Talvez ninguém nos gabinetes onde estrategistas calculam quantos civis podem morrer antes que a operação militar seja considerada um “sucesso”.

Mas há quem chore.

Eu choro.

E não choro pelo regime iraniano. Regimes passam. Ditaduras caem. Governos mudam.

Quem não volta são as crianças.

A história do século XX deveria ter ensinado alguma coisa ao jornalismo. Hiroshima ensinou. Nagasaki ensinou. O Vietnã ensinou. O Iraque ensinou. O Afeganistão ensinou.

Sempre houve uma justificativa moral impecável para cada guerra.

Sempre houve editoriais explicando por que aquela bomba específica era necessária.

E sempre houve corpos pequenos sendo retirados dos escombros.

O problema do editorial que afirma que “ninguém vai chorar pelo Irã” não é apenas político. É moral. É civilizacional.

Porque ele faz algo extremamente perigoso: desumaniza um povo inteiro.

Quando se diz que ninguém chorará por um país, o que se está dizendo, na prática, é que as vidas daquele lugar valem menos. Que a dor daquelas mães pesa menos. Que aquelas crianças são estatística.

É assim que as guerras começam.

Primeiro desumanizam-se os rostos. Depois tornam-se aceitáveis os bombardeios.

A retórica é antiga: o inimigo é um “Estado pária”, uma ameaça absoluta, um mal existencial. Logo, tudo é permitido.

E quando tudo é permitido, o que morre primeiro é a consciência.

Não se trata aqui de defender o regime iraniano, nem de ignorar tensões geopolíticas entre Irã, Israel e Estados Unidos. O mundo é complexo, e ninguém sério nega isso.

Mas uma coisa é discutir estratégia internacional.

Outra coisa é celebrar moralmente a possibilidade de guerra.

Outra coisa é dizer que ninguém chorará.

Pois eu choro.

Choro porque, quando uma bomba cai sobre uma escola, ela não pergunta em quem aquela criança votaria quando crescesse. Não pergunta qual era sua religião. Não pergunta qual era sua ideologia.

Ela apenas explode.

E no meio da poeira sempre aparece o mesmo cenário: um sapato pequeno, um caderno rasgado, um silêncio que nunca mais será quebrado.

Talvez o mundo tenha se acostumado demais com a guerra.

Talvez as redações tenham se acostumado demais a escrever sobre mortos que nunca conhecerão.

Talvez tenhamos nos tornado especialistas em geopolítica e analfabetos em compaixão.

Mas eu ainda choro.

Choro porque ainda acredito na humanidade.

Choro porque ainda acredito que a vida de uma criança iraniana vale exatamente o mesmo que a vida de uma criança brasileira, israelense ou americana.

Choro porque acredito que, quando um jornal perde a capacidade de chorar, algo muito mais grave do que uma guerra já começou.

Começou a guerra contra a própria alma.