Política e Resenha

ARTIGO — O Orgulho que a História Não Apagou

 

Padre Carlos

 

Há momentos em que uma frase atravessa oceanos e produz reflexão.

Não é um livro inteiro. Não é um tratado político. Às vezes é apenas um discurso — uma declaração de identidade, de pertencimento, de convicção.

Foi exatamente isso que senti ao ouvir as palavras de Paulo Raimundo, atual dirigente do Partido Comunista Português.

Ele dizia, com simplicidade quase desarmante:

“Este é o nosso partido… do qual temos um orgulho imenso de fazer parte, de pertencer, de construir…”.

Não era apenas retórica política.

Era algo mais profundo.

Era identidade histórica.

E isso me levou inevitavelmente a uma reflexão sobre a esquerda que conhecemos por aqui.

Durante grande parte do século XX, os partidos comunistas foram uma força viva na política mundial. No Brasil, o Partido Comunista Brasileiro e outras correntes inspiradas no marxismo desempenharam papel relevante na organização sindical, no debate intelectual e na resistência política.

Mas o tempo trouxe mudanças.

Hoje é difícil ignorar um fato evidente: os partidos comunistas brasileiros perderam não apenas capacidade de mobilização, mas também parte da sua força ideológica entre dois setores que sempre foram seu coração histórico — a juventude e o movimento operário.

Não se trata de um fenômeno isolado.

A própria esquerda brasileira mudou de linguagem, de prioridades e de horizonte político.

O discurso revolucionário foi sendo substituído por uma lógica mais pragmática, centrada na disputa eleitoral e na gestão do Estado.

A antiga retórica de ruptura social cedeu lugar a uma forma de política que lembra muito mais a social-democracia europeia que emergiu no pós-guerra: reformas graduais, pactos institucionais e administração possível do capitalismo.

Nada disso surgiu por acaso.

A história da Guerra Fria terminou, o mundo se reorganizou e a própria esquerda global passou por um processo de adaptação.

Mas é curioso observar que, enquanto muitos partidos abandonaram suas referências originais, alguns optaram por outro caminho.

Portugal oferece um exemplo singular.

O Partido Comunista Português atravessou o século XX enfrentando ditadura, clandestinidade, perseguições e profundas transformações políticas. Ainda assim, manteve uma identidade ideológica que surpreende até observadores externos.

Três gerações ajudam a contar essa história.

Primeiro veio Álvaro Cunhal, figura central da resistência ao salazarismo e um dos mais emblemáticos dirigentes comunistas da Europa ocidental.

Cunhal representava a geração que conheceu a prisão política, o exílio e a clandestinidade.

Depois surgiu Jerónimo de Sousa, um dirigente vindo diretamente do mundo operário, símbolo da continuidade da ligação do partido com os trabalhadores.

E agora aparece Paulo Raimundo, representante de uma nova geração, que tenta manter viva a tradição política do partido em pleno século XXI.

Três gerações.

Três momentos históricos.

Mas um mesmo fio ideológico.

O PCP continua profundamente ligado ao movimento sindical português, às organizações de trabalhadores e às estruturas de mobilização social.

Seu trabalho com a juventude, através de organizações políticas e culturais, mantém viva uma tradição militante que em muitos lugares desapareceu.

Não se trata apenas de estratégia política.

É uma cultura política.

Um tipo de identidade coletiva que transforma partido em comunidade histórica.

Talvez por isso o discurso de Paulo Raimundo tenha tanta força.

Quando ele fala do orgulho de pertencer ao partido, não fala apenas de uma sigla.

Fala de uma história.

Fala de uma continuidade.

Fala de uma memória política que atravessa gerações.

E talvez seja exatamente aí que reside a reflexão mais profunda.

Porque, em política, ideias podem mudar, estratégias podem evoluir, alianças podem se transformar.

Mas quando uma organização perde sua ligação emocional com sua própria história, algo essencial se dissolve.

O que permanece, então, é apenas administração da política.

O que desaparece é a chama.

E sem chama nenhuma tradição política consegue mobilizar juventude, trabalhadores ou sonhos coletivos.

Talvez por isso aquelas palavras ditas em Portugal tenham atravessado o Atlântico.

Elas não falavam apenas de um partido.

Falavam daquilo que faz uma ideia sobreviver ao tempo.

E talvez seja justamente isso que anda faltando em muitos lugares do mundo político contemporâneo.

A convicção tranquila de que algumas causas não existem apenas para vencer eleições.

Existem para continuar a história.