Política e Resenha

A Força das Mulheres que Não Recuam Março, Alice Portugal e a longa travessia pela dignidade

 

 

 

Por Padre Carlos

 

Há mulheres que passam pela história.
E há mulheres que a empurram para frente.

Algumas caminham pelos corredores do poder como quem atravessa uma sala silenciosa. Outras chegam como vento de março — levantando papéis, mexendo estruturas, lembrando ao mundo que certas lutas nunca podem adormecer.

Foi assim que conheci, ainda nos dias febris do movimento estudantil, a figura inquieta de Alice Portugal. Não apenas como uma liderança política, mas como um símbolo de algo maior: a persistência de uma geração de mulheres que decidiram não aceitar o destino que lhes haviam escrito.

Para mim, ela sempre foi uma espécie de musa política daqueles tempos.
Não no sentido romântico da palavra, mas no sentido mais profundo: a inspiração que nos lembrava que política também pode ser feita com convicção, coragem e compromisso social.

Acompanhei sua trajetória desde os dias da corrente Viração, nas assembleias agitadas do movimento estudantil, quando a democracia ainda tinha gosto de conquista recente e cada debate parecia uma pequena batalha pela reconstrução do país.

Ali já estava o traço que marcaria sua vida pública:
a política como instrumento de transformação.

Março: quando a memória vira luta

Março chegou novamente.

E não é apenas um mês no calendário.

É um tempo simbólico — quase um território moral — em que a sociedade é chamada a olhar para uma realidade que, por vezes, preferimos evitar: a violência contra as mulheres e a desigualdade histórica que ainda marca profundamente o Brasil.

Mais do que homenagens, este é um período de reflexão.

Porque os números, frios como estatísticas de guerra, são impossíveis de ignorar.

O Brasil ocupa hoje o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio.
Quatro mulheres são assassinadas por dia.

Em 2025 foram registradas 1.518 vítimas, o maior número desde o início da série histórica.

E há outro dado que nos rasga o silêncio:
a cada seis minutos uma mulher é vítima de estupro no país.

Esses números não são apenas dados.

São histórias interrompidas.

São mães que não voltaram para casa.
Filhas que não terminaram seus estudos.
Trabalhadoras que saíram para viver e encontraram a violência.

O feminicídio não escolhe classe social, cor da pele ou ideologia política.

Pode atingir uma operária, uma policial, uma professora, uma estudante ou uma trabalhadora informal.

A violência de gênero atravessa territórios e classes sociais como uma sombra persistente.

E é justamente por isso que não pode ser tratada como episódio isolado.
Ela é estrutural.

A raiz da desigualdade

Somos a maioria da população do planeta.

Somos as matrizes da humanidade.

Ainda assim, a história foi escrita, durante séculos, sobre profundas desigualdades.

Não nascemos submissas.

A desigualdade entre homens e mulheres não é biológica.
É histórica.

Quando surgiram a propriedade privada e a lógica da concentração de riquezas, consolidou-se também uma estrutura social que confinou as mulheres ao espaço doméstico.

Enquanto os homens ocupavam a política, o comércio e as decisões públicas, as mulheres foram empurradas para o silêncio da casa e para o trabalho invisível do cuidado.

A partir daí atravessamos séculos de exclusão.

Fomos silenciadas na política.
Invisibilizadas na ciência.
Exploradas no trabalho.

E, muitas vezes, submetidas a violências que a própria sociedade tratava como algo “natural”.

Mas o que foi construído pela história pode — e precisa — ser transformado pela história.

Mulheres que transformam o Brasil

É nessa travessia que surgem mulheres como Alice Portugal.

Sua trajetória política não nasceu nos gabinetes refrigerados de Brasília.

Nasceu nas ruas, nas assembleias estudantis, nos movimentos sociais e nos debates que moldaram uma geração inteira de militantes comprometidos com justiça social.

Ao longo de décadas de vida pública, sua atuação se transformou em políticas concretas.

Ela foi autora da lei que garante licença-maternidade para estudantes da pós-graduação, uma medida que reconhece que a maternidade não pode ser um obstáculo para a produção científica feminina.

Foi relatora da Lei Mariana Ferrer, que protege vítimas de crimes sexuais contra constrangimentos e humilhações durante julgamentos.

É autora da lei que proíbe revista íntima de mulheres nos locais de trabalho.

Também esteve entre os parlamentares que contribuíram para a Lei da Igualdade Salarial, um passo fundamental para enfrentar a histórica desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

Sua atuação também ajudou a consolidar a cota mínima de 30% de mulheres nas listas partidárias, uma medida que busca enfrentar um problema crônico da democracia brasileira.

Hoje o Brasil ocupa a 133ª posição entre 190 países em participação feminina no Parlamento.

Um dado que revela o tamanho do caminho ainda pela frente.

Alice também criou o Prêmio Mulheres na Ciência Amélia Império Hamburger, reconhecendo que ocupar os espaços de produção de conhecimento é também enfrentar a desigualdade histórica.

E agora, como presidenta da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, coloca no centro de sua atuação um dos desafios mais urgentes do país: o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher.

Isso significa defender orçamento público adequado, fortalecer a rede de proteção e integrar políticas de prevenção.

A luta que não termina em março

Março é símbolo.

Mas a luta é permanente.

Porque a violência contra a mulher não nasce do acaso.

Ela nasce de uma cultura que ainda carrega, em muitos de seus gestos e instituições, a ideia silenciosa de que o corpo e a vida das mulheres podem ser controlados.

Transformar essa cultura é uma tarefa histórica.

Exige leis.

Exige políticas públicas.

Mas exige também algo mais profundo:
consciência social.

Cada mulher que ocupa um espaço na política, na ciência, na universidade, no jornalismo ou nas ruas está ampliando as fronteiras da democracia.

Cada voz feminina que se levanta rompe um pedaço antigo do silêncio.

E talvez seja por isso que, quando olho para trajetórias como a de Alice Portugal, não vejo apenas uma carreira política.

Vejo uma história de resistência.

Uma daquelas histórias que lembram que a democracia não é um edifício pronto.

Ela é uma construção permanente.

Defender as mulheres é defender a humanidade

No fim das contas, a luta das mulheres não é apenas uma pauta feminina.

É uma pauta civilizatória.

Uma sociedade que não protege suas mulheres não protege ninguém.

Defender a vida das mulheres é defender o direito mais básico de todos: o direito de existir com dignidade.

E enquanto houver mulheres dispostas a transformar sua própria vida em instrumento de luta coletiva, a história continuará avançando — às vezes devagar, às vezes com dificuldade, mas sempre adiante.

Porque algumas pessoas passam pela política.

E outras deixam marcas que atravessam gerações.

Alice Portugal é uma dessas mulheres.