Política e Resenha

Raízes que Governam: como o exemplo de Zé Andrade moldou o caráter e a forma de administrar de Sheila Lemos

 

 

 

Há algo que quase nunca aparece nos discursos políticos nem nos debates eleitorais.
Algo silencioso, profundo e invisível.

O caráter que forma um líder.

Antes de qualquer cargo, antes de qualquer mandato, antes mesmo de qualquer projeto político, existe uma história que molda a forma de pensar, decidir e governar. E, muitas vezes, essa história começa longe dos gabinetes — começa na roça, na luta diária, na disciplina do trabalho.

Para entender parte da forma de governar da prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos Andrade (UB), é preciso voltar algumas décadas no tempo e olhar para a trajetória de seu pai: o empresário José da Silva Andrade, o conhecido Zé Andrade.

Porque algumas lideranças não nascem apenas da política.

Elas nascem do exemplo vivido dentro de casa.


A escola silenciosa da vida

A história de Zé Andrade começa onde tantas histórias brasileiras começaram: na pobreza rural.

Nascido na localidade de Rio Vermelho, em São Miguel das Matas, cresceu em um ambiente simples, cercado pela paisagem agreste do interior baiano, onde o cheiro da terra molhada e o som do vento nas folhas eram parte da infância.

Era um menino pobre, como tantos outros.
Mas também era uma criança feliz.

Brincava em campos de chão batido, corria entre arbustos e trilhas que ainda guardavam vestígios das antigas florestas que um dia cobriram aquela região, território ancestral de povos indígenas.

A infância, no entanto, foi interrompida cedo.

Aos onze anos de idade, a morte de sua mãe fez o mundo mudar de forma brusca. O menino que vivia na liberdade da infância passou a enfrentar a dureza da sobrevivência.

Foi morar em casas de parentes.
Começou a trabalhar cedo.

O que era brincadeira virou responsabilidade.

Para muitos, seria apenas uma história de sofrimento.
Mas para Zé Andrade foi uma formação de caráter.

Ele nunca tratou aquela fase como injustiça. Pelo contrário: costuma dizer que foi ali que aprendeu as lições mais importantes da vida.

Disciplina.
Persistência.
Resiliência.

Valores que não se aprendem em livros.

Aprendem-se na vida.


O jovem que chegou com coragem

Em 1962, ainda jovem, Zé Andrade decidiu buscar um novo destino em Vitória da Conquista.

Não tinha dinheiro.
Não tinha patrimônio.
Não tinha padrinhos políticos.

Chegou como chegaram milhares de nordestinos naquele período: em cima de um caminhão pau-de-arara, trazendo apenas coragem e vontade de trabalhar.

Seu primeiro emprego foi humilde: servente em um bar na antiga Rio–Bahia.

Depois vieram outras funções — balconista, dono de barraca em feira livre, vendedor ambulante de produtos de alumínio percorrendo cidades do sul da Bahia como Eunápolis, Camacan e Itamaraju.

Era uma vida dura.

Mas havia algo que nunca faltou: trabalho.

E trabalho, quando acompanhado de perseverança, costuma produzir resultados.

Décadas depois, aquele jovem que chegou sem nada tornou-se um empresário respeitado em Vitória da Conquista. Dono de terras, fazendas de café, rebanhos de gado e imóveis valorizados no centro da cidade.

Não se tornou um magnata nacional.
Mas construiu algo mais valioso: uma trajetória de superação autêntica.

Uma história que ensinou à família uma verdade simples e poderosa: ninguém constrói nada duradouro sem trabalho.


A herança invisível

Mas talvez o maior patrimônio deixado por Zé Andrade não esteja nas terras, nas empresas ou nos bens acumulados ao longo da vida.

Está no exemplo.

Dentro de casa, os filhos cresceram vendo o pai acordar cedo, enfrentar dificuldades e reconstruir caminhos quando a vida parecia fechar portas.

Viram também a força da mãe, Irma Lemos, mulher de origem igualmente humilde, que se tornaria uma liderança política respeitada em Vitória da Conquista, eleita vereadora por três mandatos e presidente da Câmara Municipal.

A casa daquela família nunca foi apenas um lar.

Foi uma escola de vida.

Uma escola onde se aprendia que o sucesso não vem de atalhos, mas de esforço; que liderança exige responsabilidade; e que a vida pública deve ser exercida com transparência.

Foi nesse ambiente que cresceu Sheila Lemos Andrade.


Da herança familiar ao estilo de gestão

Quando Sheila Lemos chegou à prefeitura de Vitória da Conquista, muitos a enxergaram apenas como uma nova figura política.

Mas quem observa com mais atenção percebe que sua forma de administrar carrega marcas profundas dessa formação familiar.

A disciplina do trabalho.
A disposição para enfrentar crises.
A capacidade de resistir à pressão.

Esses elementos não surgem do acaso.

Eles nascem de uma cultura familiar onde o esforço sempre foi a principal moeda.

A experiência de quem viu o pai construir a vida do zero ensina uma lição essencial: governar também é administrar desafios com perseverança.

Assim como no mundo dos negócios, na gestão pública também é preciso tomar decisões difíceis, suportar críticas e manter o foco no longo prazo.

Nesse sentido, a trajetória de Zé Andrade ajuda a explicar uma dimensão menos visível da política conquistense: a influência da história familiar na formação das lideranças locais.


O voo e as raízes

O condor sobe lentamente até dominar os céus das montanhas.

Mas há algo importante nessa metáfora.

Mesmo quando alcança as maiores alturas, ele nunca perde a referência das montanhas de onde partiu.

Talvez essa imagem explique bem a trajetória da família Andrade.

Zé Andrade saiu da terra e alcançou o sucesso.
Irma Lemos transformou trabalho social em liderança política.
E Sheila Lemos chegou ao comando de uma das cidades mais importantes do interior do Nordeste.

Cada geração subiu um pouco mais.

Mas sem esquecer as raízes.


A lição que permanece

Num tempo em que a política brasileira muitas vezes parece dominada por narrativas superficiais, histórias como essa lembram algo fundamental:

Lideranças não se formam apenas nas campanhas eleitorais.

Elas se formam na vida.

Na infância difícil.
No exemplo dos pais.
Na disciplina do trabalho.
Na capacidade de levantar depois das quedas.

Se existe uma herança invisível que atravessa a história dessa família, ela não é apenas patrimônio econômico.

É resiliência.

E, às vezes, é justamente essa herança silenciosa que molda a forma como uma cidade é governada.