Política e Resenha

ARTIGO — Quando o Mal Tenta Reescrever a História

 

 

 

Padre Carlos

 

Há momentos na história em que o absurdo ultrapassa o limite do ridículo e entra definitivamente no território do grotesco. Estamos diante de um desses momentos.

Como se não bastasse a violência brutal que marcou o caso de Maria da Penha Maia Fernandes, agora surge uma tentativa quase caricatural de reescrever os fatos. Sim, porque aparentemente não foi suficiente atirar, agredir, destruir uma vida e depois enfrentar a justiça. Era preciso mais: era necessário também assassinar a verdade.

E como se faz isso nos tempos modernos? Simples. Não se usam mais apenas balas. Usam-se documentários suspeitos, laudos adulterados e campanhas virtuais organizadas em grupos de WhatsApp. Tudo muito moderno. Tudo muito tecnológico. O velho crime agora vem com filtro digital.

Segundo denúncia do Ministério Público do Ceará, aceita pela Justiça e que tramita na Tribunal de Justiça do Ceará, o ex-marido da ativista e outros envolvidos passaram à condição de réus após investigação que revelou uma tentativa de manipulação grotesca da história. O roteiro da trama é quase digno de um filme de comédia involuntária: pegar um laudo pericial, adulterar o documento e apresentá-lo como se fosse prova definitiva de inocência.

Uma obra de ficção jurídica.

O problema é que a realidade, infelizmente, costuma ter menos paciência com farsas. A Perícia Forense do Estado do Ceará concluiu que o documento foi adulterado. Ou seja: aquilo que deveria ser prova virou evidência do próprio crime.

Mas o espetáculo não parou por aí.

De acordo com a investigação, houve organização de grupos digitais para atacar a vítima, intimidar, perseguir e tentar construir uma narrativa paralela. A isso deram um nome quase cinematográfico: “investigação paralela”.

Paralela mesmo. Paralela à verdade. Paralela à justiça. Paralela aos fatos.

E eis a grande ironia deste episódio: enquanto alguns tentam fabricar uma realidade alternativa, a história verdadeira continua registrada em tribunais, processos e cicatrizes.

A tentativa de inverter os papéis — transformar a vítima em vilã e o agressor em injustiçado — não é nova. Trata-se de uma velha estratégia da desinformação: confundir, relativizar, embaralhar a memória coletiva até que ninguém saiba mais onde está a verdade.

Primeiro duvida-se da vítima.
Depois distorce-se a prova.
Por fim, constrói-se uma narrativa onde o crime desaparece e sobra apenas uma “polêmica”.

É a política da fumaça: cria-se tanta confusão que o incêndio moral deixa de ser percebido.

Mas há um detalhe que os arquitetos dessas fantasias parecem esquecer: a história não é um documento que se pode editar em um computador. A história é feita de fatos, decisões judiciais, testemunhos e, sobretudo, de consequências humanas irreversíveis.

A trajetória de Lei Maria da Penha não nasceu de uma invenção ideológica, como alguns gostam de insinuar em suas teorias conspiratórias de internet. Ela nasceu de sofrimento real, de um processo judicial longo e de uma luta internacional por justiça.

Tentar desqualificar essa história com um pen drive adulterado é como tentar apagar um incêndio jogando gasolina.

E aqui surge a pergunta inevitável: que tipo de sociedade aceita assistir, em silêncio, à tentativa de transformar vítimas em culpadas?

Quando a verdade começa a ser atacada, não é apenas uma pessoa que está sendo perseguida. É a própria memória moral de uma sociedade.

O episódio que agora chega aos tribunais não é apenas mais um processo criminal. É um retrato inquietante do nosso tempo: a era em que a mentira tenta se vestir de investigação, a perseguição se disfarça de opinião e a difamação tenta posar de liberdade de expressão.

Mas há um limite.

A justiça pode ser lenta, mas costuma ter memória longa. E a história — ao contrário dos documentos falsificados — não pode ser adulterada.

Porque, no final das contas, o mal até pode tentar reescrever a história.

Mas sempre acaba deixando impressas as próprias digitais no crime.