
Por Padre Carlos
O desenvolvimento da capital baiana, ao longo do século XX, é marcado por um movimento pendular entre a preservação de tradições seculares e a busca incessante por uma modernidade urbanística que, muitas vezes, desconsiderou o tecido social preexistente. No centro dessa tensão encontra-se o bairro da Pituba, cuja trajetória de fazenda colonial a polo de verticalização e segregação socioespacial oferece um estudo de caso contundente sobre as mutações da identidade soteropolitana. A Festa de Nossa Senhora da Luz, outrora o ápice da coesão comunitária e uma das mais vibrantes festas de largo de Salvador, serve como o principal termômetro dessas transformações, onde o seu apogeu e subsequente declínio narram a história de um bairro que, ao se tornar “moderno”, perdeu parte fundamental de sua alma coletiva.
Gênese Territorial: Da Fazenda Colonial ao Planejamento Modernista
A ocupação do solo na região que hoje compreende a Pituba remonta aos primórdios da colonização portuguesa, caracterizando-se por uma longa fase de isolamento geográfico e exploração agrícola rudimentar. Durante séculos, a área foi dominada pela Fazenda Pituba, um território vasto composto por dunas, vegetação de restinga, trechos densos de Mata Atlântica e coqueirais que se estendiam até o horizonte marítimo. O nome “Pituba”, com raízes indígenas, já indicava a relação visceral com a natureza local, enquanto a localidade vizinha, Itaigara, evocava a imagem de “canoa de pedra ou de metal” na língua tupi-guarani.
Nesse período bucólico, a vida na região orbitava em torno de uma pequena vila de pescadores e da sede da fazenda, onde a família proprietária residia em relativo isolamento do Centro Histórico de Salvador. A religiosidade já se fazia presente no século XVII, com relatos da existência de uma capela de taipa dedicada a Nossa Senhora da Luz, abrigando uma imagem trazida de Portugal, o que estabeleceu a fundação espiritual sobre a qual o bairro seria construído décadas depois.
| Marco Temporal | Evento e Contexto Histórico | Impacto Urbanístico |
| Século XVII | Estabelecimento da Capela de Nossa Senhora da Luz em taipa. | Fundação do núcleo religioso original do bairro. |
| 1919 | Lançamento da “Cidade da Luz” por Joventino Pereira da Silva. | Início da transição de fazenda para loteamento urbano. |
| 1932 | Aprovação do Plano Urbanístico de Theodoro Sampaio. | Definição da malha viária com 10 paralelas e 15 transversais. |
| 1949 | Pavimentação da Avenida Octávio Mangabeira (Orla). | Integração definitiva com o eixo norte da cidade. |
| 1960 | Inauguração da atual Igreja de Nossa Senhora da Luz. | Consolidação do centro cívico e religioso da Pituba. |
| 1973 | Criação do Parque Joventino Silva (Parque da Cidade). | Preservação de reserva ambiental em área de expansão imobiliária. |
A transição da vida rural para o ambiente urbano planejado teve início na década de 1920, sob a liderança de Joventino Pereira da Silva. Ao receber as terras de seu cunhado, Manoel Dias da Silva, Joventino vislumbrou a criação de um bairro de elite que pudesse espelhar os ideais de modernidade observados em outras capitais brasileiras. O projeto, encomendado ao renomado engenheiro Theodoro Sampaio, foi desenhado para romper com a organicidade desordenada do centro colonial, propondo ruas amplas, loteamentos projetados e uma infraestrutura mínima que incluía áreas verdes e saneamento básico. A Pituba começava a dar seus primeiros passos como um “arrabalde de elite”, uma zona de veraneio que prometia ar puro e exclusividade.
O Ciclo Festivo de Verão e a Liturgia da Luz
Para compreender a importância da Festa da Pituba, é necessário inseri-la no contexto mais amplo das “festas de largo” que compõem o Ciclo Festivo do Verão em Salvador. Conforme as pesquisas antropológicas de Cleidiana Ramos, Salvador se identifica como uma “cidade festiva” onde as comemorações superam a efemeridade cronológica para se tornarem elementos estruturantes da identificação social. A festa da Pituba, celebrada em torno de 2 de fevereiro, ocupava um lugar de destaque por sua complexidade e pluralidade de ritos.
A data de 2 de fevereiro possui um forte simbolismo feminino e mariano em todo o mundo católico, celebrando a Purificação de Nossa Senhora, também conhecida como Nossa Senhora da Luz, das Candeias ou da Candelária. Na Bahia, essa energia feminina se funde de maneira indissociável com a veneração a Iemanjá, a Rainha das Águas no candomblé. Enquanto o Rio Vermelho se tornava o epicentro da maior manifestação religiosa pública de matriz africana, a Pituba desenvolvia uma celebração que, embora centrada na paróquia, abraçava o sincretismo e a cultura popular de forma orgânica.
Um dos momentos mais emblemáticos da celebração na Pituba era a procissão marítima, conduzida pelos pescadores de Amaralina e da própria Pituba. Além da imagem da padroeira, o cortejo carregava a imagem do Menino Jesus de Praga, simbolicamente associado ao orixá Logunedé — filho de Oxum e Oxóssi — reforçando o caráter plural e a profunda conexão entre a fé católica e as tradições afro-brasileiras. Essa integração demonstra que, no seu apogeu, a festa não era apenas um evento eclesiástico, mas um espaço de negociação cultural e afirmação da identidade de um bairro que ainda mantinha laços estreitos com o mar e com a pesca artesanal.
O Apogeu da Festa de Largo: Entre o Sagrado e o Profano
Entre as décadas de 1950 e o início dos anos 1980, a Festa da Pituba atingiu seu máximo esplendor, sendo considerada uma das mais animadas e completas de Salvador. A celebração estendia-se por cerca de dez dias, acumulando uma diversidade de ritos que iam desde novenas solenes até competições esportivas e apresentações musicais de vanguarda. A Praça Nossa Senhora da Luz tornava-se um “caldeirão cultural”, repleta de barracas de comidas típicas, parques de diversão com rodas-gigantes e uma atmosfera de proximidade comunitária que hoje parece estranha à impessoalidade dos bairros de classe média alta.
A programação profana era um espetáculo à parte, refletindo a efervescência cultural da Bahia. Eventos como a “Tarde da Bossa Nova”, liderada pelo músico Waldir Serrão, conviviam com as rodas de capoeira comandadas pelo lendário Mestre Caiçara. Caiçara, figura central das festas de largo de Salvador, era um defensor ferrenho das tradições da Capoeira Angola, utilizando sua voz potente para entoar ladainhas e sambas de roda que ressoavam por toda a praça. Sua presença na Pituba simbolizava a resistência da cultura de rua em um espaço que começava a ser moldado pelo capital imobiliário.
| Evento | Liderança/Organizador | Característica Principal |
| Tarde da Bossa Nova | Waldir Serrão | Modernismo musical e integração jovem. |
| Rodas de Capoeira | Mestre Caiçara | Preservação da tradição da Capoeira Angola. |
| Baile de Iemanjá | Clube Português | Evento social de elite com artistas e autoridades. |
| Desfiles Carnavalescos | Rádio Sociedade | Competições de ranchos, ternos e blocos. |
| Lavagem da Igreja | Baianas e Moradores | Rito de purificação e início da parte profana. |
| Corridas de Bicicleta/Jangada | Comissão de Festejos | Integração esportiva entre moradores e pescadores. |
O Clube Português, situado quase em frente à praça, desempenhava um papel fundamental ao realizar o sofisticado Baile de Iemanjá, que atraía a alta sociedade soteropolitana e celebridades nacionais. Essa convivência entre o popular — representado pelos pescadores e capoeiristas — e o erudito — representado pelos bailes de clube — criava uma dinâmica social única, onde a Pituba funcionava como um microcosmo da “Bahia de Todas as Festas”.
Lideranças Comunitárias e o Papel do Padre Miguel
A coesão da Festa da Pituba não era fruto apenas do acaso, mas da atuação de líderes que exerciam uma autoridade moral e organizativa sobre o bairro. Entre essas figuras, o Padre Miguel Archanjo de Lima Leal (conhecido popularmente como Padre Miguel ou Padre Matheus) destaca-se como o eixo de equilíbrio da comunidade. Descrito como um homem que “não perguntava a origem, apenas acolhia”, Padre Miguel era visto frequentemente circulando pelas barracas da festa, conversando com pescadores e participando ativamente da vida cotidiana de seus paroquianos.
Sua influência ia muito além da liturgia; ele desenvolveu projetos significativos de assistência social em áreas vizinhas, como o Nordeste de Amaralina, promovendo a integração entre os moradores de diferentes estratos socioeconômicos. Essa liderança sacerdotal, que abraçava a festa de largo como uma extensão da igreja, foi crucial para que a celebração mantivesse seu caráter democrático e inclusivo durante décadas.
Paralelamente, a organização dos festejos profanos contava com o empenho de moradores como Lourival Medrado, líder dos barraqueiros, e o jornalista José Curvello. Curvello, em particular, utilizou sua posição na imprensa baiana para defender ferrenhamente a tradição da Lavagem da Pituba contra as pressões de setores que desejavam higienizar o bairro. A morte de Padre Miguel e o enfraquecimento dessa “velha guarda” de defensores da tradição criaram um vácuo que facilitou o processo de descaracterização da festa.
Urbanização, Verticalização e a Fragmentação Social
A transformação da Pituba de um refúgio de veraneio em um densamente povoado centro urbano foi um processo acelerado pelo interesse do capital imobiliário a partir da década de 1960. Com a saturação do centro tradicional de Salvador, a Pituba tornou-se o novo eixo de desenvolvimento, caracterizado por uma elevada gama de investimentos que a transformaram em uma das áreas mais valorizadas da cidade. No entanto, esse desenvolvimento não foi uniforme nem inclusivo; ele resultou em um “meio segregado, desarticulado da realidade de grande parte da cidade”.
A verticalização intensa substituiu as casas amplas e bucólicas por torres de apartamentos, atraindo uma nova classe média alta que priorizava a segurança e a tranquilidade residencial em detrimento da efervescência das ruas. A “Pituba antiga”, onde as ruas eram fechadas para feijoadas comunitárias na casa de moradores como o Doutor Seixas, começou a desaparecer sob a sombra dos edifícios. A paisagem, que antes contava com mangueiras, cajueiros e coqueiros onde as crianças podiam subir livremente, foi sendo cimentada, alterando irreversivelmente a relação dos habitantes com o espaço público.
Esse processo de urbanização moderna, muitas vezes dissociado da memória local, gerou um conflito inevitável com as festas de largo. Os novos moradores passaram a ver o barulho, o fluxo de pessoas de outros bairros e a montagem das barracas não como uma celebração, mas como um transtorno. A pressão por “ordem e progresso” no bairro começou a se manifestar em críticas à “decadência” da festa, termo frequentemente usado por elites para justificar o fim de manifestações populares que fogem ao seu controle.
O Golpe de 1983: A Transferência para o Jardim dos Namorados
O declínio efetivo da Festa da Pituba teve um marco político-administrativo claro: o ano de 1983, quando a prefeitura decidiu transferir as barracas e a programação profana da Praça Nossa Senhora da Luz para o Jardim dos Namorados. O Jardim dos Namorados, uma obra pública entregue na década de 1970 como parte de um esforço de “requalificação urbanística”, situava-se a cerca de um quilômetro de distância da igreja, em uma área mais isolada da orla.
Embora o então prefeito Clériston Andrade tenha inicialmente tentado classificar a notícia como boato em 1973, a mudança concretizou-se anos depois sob a justificativa de melhorar o fluxo de trânsito e reduzir o impacto sonoro no núcleo residencial do bairro. Para pesquisadores como Nelson Cadena, essa decisão representou um “esvaziamento simbólico” fatal para a tradição. Ao separar a parte profana da praça da igreja, quebrou-se a unidade que caracteriza a festa de largo baiana; a celebração deixou de ser a “Festa da Pituba” para se tornar apenas “mais um evento” descontextualizado.
| Comparativo da Localização da Festa | Praça Nossa Senhora da Luz | Jardim dos Namorados |
| Identidade | Centro orgânico do bairro, ligada à memória histórica. | Espaço artificial de lazer, sem vínculos ancestrais. |
| Religiosidade | Proximidade imediata com a igreja e a lavagem. | Deslocamento geográfico que isola o rito sagrado. |
| Acesso Popular | Integrado às residências e ao comércio local. | Área de orla, facilitando o cerceamento e controle social. |
| Público | Moradores de todas as classes e visitantes. | Esvaziamento progressivo e perda do caráter comunitário. |
O impacto foi imediato e visível. Relatos do jornal “A Tarde” em 1986 descreviam o “triste fim” da Lavagem da Pituba, que reuniu apenas quatro baianas e cerca de cem acompanhantes, muitos dos quais carregavam cartazes de protesto contra a transferência para o Jardim dos Namorados. A tentativa de “esconder” a festa, empurrando-a para a beira da praia, resultou na sua morte por inanição cultural. Além disso, a antecipação da data para o dia exato de 2 de fevereiro colocou a Festa da Pituba em competição direta com a celebração de Iemanjá no Rio Vermelho, selando definitivamente seu destino como um evento secundário e, por fim, extinto.
Resistência e o Legado dos Pescadores Artesanais
Enquanto a festa de largo desaparecia, os grupos que deram origem ao bairro continuaram a lutar por seu espaço. Os pescadores artesanais da Colônia Z1, especificamente o núcleo da capatazia do Jardim dos Namorados, permanecem como um dos últimos elos com a história geohistórica e ecológica da região. A urbanização no entorno e as políticas de requalificação da orla afetaram profundamente sua atividade, com a canalização do rio Camarajipe e a metropolização reduzindo as áreas de pesca e os recursos naturais.
Apesar disso, a pesca artesanal na Pituba é um exemplo de resiliência cultural. Eles mantêm a tradição de celebrar Iemanjá e Nossa Senhora da Luz, adaptando seus ritos aos novos desafios contemporâneos, como a poluição marinha. O envolvimento dos pescadores em campanhas para tornar as oferendas de 2 de fevereiro biodegradáveis demonstra que a tradição não é estática, mas capaz de dialogar com as necessidades do presente para garantir seu futuro.
A Colônia Z1, que abrange cerca de 200 pescadores no Rio Vermelho e núcleos na Pituba e Boca do Rio, continua sendo a guardiã da “Casa de Iemanjá” e de ritos que remontam a mais de um século. Mesmo sem a grandiosidade da festa de largo de outrora, a alvorada de fogos e o presente principal entregue ao mar em 2 de fevereiro mantêm viva a chama da religiosidade popular que a urbanização agressiva tentou apagar.
Análise Sociológica do Declínio: Higienização e Memória
A trajetória da Festa da Pituba não é apenas uma história de má gestão de eventos, mas um retrato das transformações na ordem urbana de Salvador. O desaparecimento do evento de largo, enquanto ritos católicos estritos persistem dentro da igreja, aponta para uma fragmentação do fenômeno festivo. Ocorreu o que a sociologia urbana define como “higienização social”: a expulsão das práticas ruidosas e democráticas do espaço público para satisfazer os desejos de uma elite emergente que busca uma cidade “limpa” de conflitos e de diversidade popular.
O jornalismo de José Curvello e as memórias de moradores como Antônio Diniz revelam a gratidão por terem vivido o apogeu da festa, mas também a amargura de ver o bairro perder seus vínculos afetivos mais fortes. A Pituba atual, com sua infraestrutura de ponta e alto valor de mercado, carece do “clima de proximidade” que outrora unia pescadores, comerciantes, jornalistas e paroquianos em torno de uma celebração comum.
A extinção da festa é a face cultural da segregação socioespacial. Quando um bairro se fecha em seus condomínios e elimina as festas de largo, ele rompe o contrato social de convivência entre diferentes, tornando-se uma “ilha” de classe média desconectada da história que a gerou. A memória da Festa da Pituba permanece, assim, como um lembrete da importância do espaço público como lugar de encontro e de celebração da pluralidade baiana.
Considerações Finais sobre a Metamorfose da Pituba
A Festa da Pituba: tradição, celebração e a história de um bairro em transformação, é uma narrativa que resume as contradições da modernização brasileira. O sucesso econômico e urbanístico do bairro, simbolizado por seus edifícios modernos e serviços sofisticados, foi conquistado ao custo da desarticulação de uma das mais ricas tradições populares de Salvador. O apogeu da celebração representou o momento em que a Pituba era um bairro completo: uma zona de veraneio que respeitava suas raízes marítimas e integrava modernidade com sincretismo.
O declínio da festa, precipitado pela transferência traumática para o Jardim dos Namorados e pela pressão por uma urbanização higienizada, serve como uma lição sobre a fragilidade do patrimônio imaterial diante do avanço desenfreado do mercado imobiliário. Embora a paróquia continue suas atividades religiosas e os pescadores da Colônia Z1 mantenham sua resistência cotidiana, o espírito da “Festa da Pituba” — aquele que unia Mestre Caiçara, Waldir Serrão e Padre Miguel em uma mesma praça — hoje reside apenas nos arquivos e na saudade de quem viveu a bucólica e vibrante Pituba de outrora.
Este relatório demonstra que a preservação da memória e das festas populares não é apenas uma questão de folclore, mas de direito à cidade e de manutenção da identidade comunitária. A história da Pituba revela que um bairro sem suas festas é um bairro que corre o risco de perder sua história e de se tornar um cenário desprovido de alma.




