Política e Resenha

ARTIGO – UM DIA QUE VALE MIL ANOS

 

(Padre Carlos)

Se eu pudesse fazer um único pedido a Deus, seria simples. Não pediria riqueza, nem glória, nem as ilusões passageiras que o mundo vende como felicidade. Eu pediria apenas um dia. Um único dia contigo.

A Bíblia diz que, para Deus, um dia equivale a mil anos. Sempre achei essa frase um mistério teológico, até descobrir que ela também é uma verdade do coração. Porque há encontros que dilatam o tempo. Há presenças que fazem o relógio perder o sentido.

O amor verdadeiro tem essa estranha capacidade de dobrar o universo.

Quando penso em você, imagino que cada segundo ao seu lado se multiplicaria como estrelas numa noite infinita. Cada olhar teu valeria mil amanheceres. Cada toque carregaria mil promessas cumpridas. E cada silêncio — esses silêncios que só os amantes entendem — seria como mil orações respondidas.

Há quem diga que o amor é passageiro, que tudo se dissolve com o tempo, que o coração humano é apenas uma estação de passagem. Mas eu aprendi algo diferente. O que senti por você não pediu licença ao calendário.

Ele nasceu fora do tempo.

Talvez seja por isso que certas memórias permanecem vivas mesmo quando os anos passam como folhas levadas pelo vento. Elas não pertencem ao relógio. Pertencem à eternidade.

Existe um tipo de amor que não se explica com lógica nem com psicologia. Ele não cabe em definições acadêmicas nem em teorias modernas sobre relacionamentos. É um amor que parece ter sido escrito antes da nossa própria existência, como se o destino tivesse desenhado duas almas no mesmo verso do universo.

Quando duas pessoas se encontram assim, o mundo inteiro muda de ritmo.

O barulho da vida diminui. As urgências perdem a pressa. Até o céu parece inclinar-se para assistir ao milagre silencioso de dois corações que finalmente se reconheceram.

E então entendemos algo profundo: o tempo humano é curto, mas o amor tem vocação para o infinito.

Se o céu tivesse um relógio, tenho certeza de que ele pararia por um instante só para nos ver juntos. Não por capricho, mas porque certos encontros são tão raros que merecem suspender as leis do universo.

Por isso, se o destino me oferecesse um único pedido, eu não hesitaria.

Eu pediria aquele dia.

Aquele dia em que o tempo se curvou, o céu se abriu e o meu coração encontrou repouso. Um dia inteiro contigo, vivendo cada instante como quem atravessa um portal entre o mundo e a eternidade.

Porque se para Deus um dia equivale a mil anos, então um único dia ao seu lado seria suficiente para viver toda uma eternidade.

E talvez seja exatamente isso que o amor verdadeiro sempre foi: uma pequena eternidade disfarçada de encontro.