
Padre Carlos
Há silêncios que não são ausência. São presenças que aprenderam a morar dentro da gente.
Em Vitória da Conquista, o meio-dia nunca mais foi o mesmo. Ainda que os ponteiros insistam em cumprir sua rotina, há um intervalo invisível no ar — um espaço onde antes vibrava uma voz firme, inquieta, apaixonada. A voz de Herzem Gusmão.
Cinco anos se passaram desde aquela noite de 18 de março de 2021. Cinco anos desde que o tempo, impiedoso, interrompeu uma história que parecia feita de permanência. E, no entanto, há histórias que não terminam — apenas mudam de frequência.
Herzem não foi apenas um prefeito. Reduzi-lo a um cargo seria como tentar aprisionar o vento numa gaveta. Ele foi, antes de tudo, um intérprete da alma conquistense. Durante décadas, no rádio — esse altar invisível onde vozes se tornam companhia — construiu um vínculo raro com o povo. No programa Resenha Geral, não era apenas notícia que se transmitia. Era pertencimento.
Sua fala tinha textura. Tinha chão. Tinha poeira de estrada, café coado na hora e o calor das discussões sinceras. Ele transformava o cotidiano em narrativa, e a narrativa em mobilização. Era o tipo de comunicador que fazia da palavra uma ponte — nunca um muro.
E talvez por isso sua travessia para a política tenha sido tão natural.
Quando assumiu a prefeitura de Vitória da Conquista, levou consigo mais do que propostas: levou uma escuta. Em tempos em que muitos falam demais e ouvem de menos, Herzem fazia o movimento inverso. Governava com o ouvido colado na cidade. Sua gestão, com acertos e desafios — como toda obra humana — foi marcada por uma característica cada vez mais rara: intenção.
Ele acreditava. E acreditar, hoje, é um ato quase revolucionário.
A pandemia de COVID-19 não levou apenas um homem. Levou um símbolo de uma geração que viveu intensamente o rádio, a política de proximidade, o contato direto, o olho no olho. Levou um tempo em que a comunicação não era mediada por algoritmos, mas por emoções reais.
Sua luta nos últimos meses de vida foi pública, humana, dolorosamente próxima. Quando, em uma mensagem, pediu orações e reafirmou sua fé, não falava como autoridade — falava como um de nós. E talvez tenha sido esse o seu maior legado: nunca deixou de ser povo.
A comoção que tomou conta da cidade naquele março não foi protocolar. Foi orgânica, profunda, quase física. Homens, mulheres, crianças — todos pareciam carregar um pedaço da mesma ausência. Como se Conquista tivesse perdido não apenas um prefeito, mas uma parte de sua própria voz.
E perdeu.
Mas também ganhou.
Ganhou memória. Ganhou referência. Ganhou uma história que insiste em ensinar. Porque o verdadeiro legado político não está apenas nas obras de concreto, mas nas marcas invisíveis que se deixam nas pessoas.
Hoje, ao lembrarmos de Herzem Gusmão, não estamos apenas olhando para trás. Estamos sendo desafiados a olhar para dentro.
Que tipo de cidade queremos construir?
Que tipo de liderança esperamos?
E, sobretudo: quem ainda está disposto a amar esta terra com a mesma intensidade?
Há uma geração de conquistenses que está partindo — homens e mulheres que ajudaram a moldar o espírito desta cidade. Com eles, vai-se um modo de viver, de fazer política, de se comunicar. Mas fica a responsabilidade.
Fica o bastão.
A saudade, é verdade, ainda aperta. Mas não paralisa. Porque quem foi amado com verdade não desaparece — se transforma em दिशा, em norte, em lembrança que orienta.
Herzem continua.
Continua em cada debate que busca justiça.
Continua em cada microfone que ousa falar pelo povo.
Continua em cada cidadão que ainda acredita que política pode ser instrumento de cuidado.
E talvez seja esse o maior milagre da memória: transformar ausência em compromisso.
Cinco anos depois, a voz pode não ecoar mais nas ondas do rádio.
Mas segue ressoando — firme, teimosa, viva — no coração de Vitória da Conquista.
E enquanto houver quem escute… ela jamais se calará.




