Enquanto trabalhadores denunciam salários atrasados e direitos suprimidos, o Estado assiste — em silêncio — à corrosão da dignidade de quem sustenta serviços essenciais
No interior de um hospital público em Vitória da Conquista, onde vidas são diariamente salvas, há uma outra batalha sendo travada — silenciosa, desgastante e, até agora, ignorada. Não é contra doenças, mas contra a própria estrutura que deveria garantir dignidade a quem trabalha. São homens e mulheres que limpam corredores, transportam pacientes, organizam rotinas invisíveis. Sem eles, o sistema para. Mas, para o sistema, eles parecem não existir.
Os trabalhadores da Positiva Empreendimentos e Serviços Ltda., empresa terceirizada que presta serviços ao Governo do Estado da Bahia, voltaram a denunciar um cenário que beira o colapso trabalhista. E não se trata de um episódio isolado. As irregularidades — graves e reiteradas — se arrastam há pelo menos três anos, corroendo não apenas direitos, mas a própria sobrevivência de centenas de famílias.
Os relatos são contundentes: salários pagos com atraso, quando pagos; ausência de recolhimento do FGTS; vale-refeição parcelado — ou simplesmente inexistente em determinados meses. Para aqueles que deixam a empresa, a situação se agrava: verbas rescisórias não são quitadas, férias não são pagas, e o único caminho restante tem sido a judicialização em massa. A Justiça do Trabalho, por sua vez, torna-se um último refúgio para quem já deveria ter sido protegido na origem.
Mas há um elemento que torna esse cenário ainda mais inquietante — e profundamente irônico.
O governo estadual, contratante desses serviços, é liderado por um grupo político cuja identidade histórica está intrinsecamente ligada à defesa dos trabalhadores. O Partido dos Trabalhadores construiu sua trajetória sob o discurso da valorização do trabalho, da justiça social e da proteção dos mais vulneráveis. Diante disso, a pergunta que ecoa — incômoda, inevitável — é: quem representa, hoje, esses trabalhadores?
A terceirização, concebida como instrumento de eficiência administrativa, transformou-se, em muitos casos, em um mecanismo sofisticado de diluição de responsabilidades. A empresa terceirizada falha, o trabalhador sofre, e o Estado — embora contratante e beneficiário direto da força de trabalho — se coloca como observador distante. Cria-se uma zona cinzenta onde direitos se perdem e deveres se fragmentam.
No Complexo Hospitalar de Vitória da Conquista, o sentimento predominante entre os terceirizados é o de abandono. Não apenas pela empresa, mas também pelas instituições que deveriam fiscalizar e intervir. Há medo. Medo de denunciar, medo de perder o emprego, medo de represálias. E esse medo, por si só, já denuncia um sistema adoecido.
Enquanto isso, a conta chega — e não é apenas financeira. Endividamento, insegurança alimentar, sofrimento emocional. O impacto ultrapassa os muros do hospital e se espalha pelas casas dessas famílias, onde a instabilidade virou rotina.
Os trabalhadores pedem o básico — e o básico, neste caso, é urgente: auditoria rigorosa dos contratos, fiscalização efetiva dos encargos sociais, intervenção estatal para garantir pagamentos atrasados. Não se trata de reivindicação ideológica, mas de sobrevivência.
O silêncio institucional, até aqui, não é apenas omissão. É uma escolha.
E toda escolha tem consequência.
Ao permitir que contratos públicos coexistam com reiteradas violações trabalhistas, o Estado não apenas falha como gestor — ele compromete sua própria legitimidade moral. Porque não há discurso político que resista ao contraste com a realidade concreta de quem vive à margem das garantias que deveriam ser universais.
No fim, resta uma pergunta que insiste em não calar:
em um governo que nasceu para defender trabalhadores, como se explica a permanência de trabalhadores sem defesa?





