Há algo de curioso — quase didático — na forma como a Rede Globo atravessa as décadas no Brasil: muda o cenário, trocam-se os personagens, mas o roteiro… ah, o roteiro permanece intocado. Sempre o mesmo. Sempre conveniente. Sempre impune.
E o mais impressionante não é o que ela faz. É o que nunca acontece depois.
Nada.
Nenhuma explicação convincente. Nenhuma consequência institucional. Nenhuma responsabilização. Como se estivéssemos diante de uma entidade acima do bem, do mal — e, principalmente, da lei.
O episódio mais recente apenas reforça essa velha engrenagem. Em horário nobre, o Jornal Nacional dedica longos minutos a uma reportagem baseada em “coincidências financeiras”, pescadas de uma investigação da Polícia Federal e previamente publicadas por outro veículo. Até aí, dirão alguns, tudo dentro do jogo jornalístico. Será mesmo?
Ou estamos, mais uma vez, diante daquele velho método — aquele que marcou o período da Operação Lava Jato — onde vazamentos seletivos viravam manchetes, manchetes viravam condenações morais, e o devido processo legal… bem, esse ficava para depois, quando ainda restava alguma reputação em pé?
O advogado Marco Aurélio Carvalho foi direto ao ponto: chamou aquele período de “tenebroso”. E não é difícil entender por quê. A história recente do país já mostrou o poder destrutivo de uma narrativa construída no horário nobre, quando a dúvida é apresentada como culpa e a insinuação veste a fantasia de verdade.
Agora, o alvo da vez é Fábio Luís Lula da Silva. O enredo? Relações financeiras indiretas, coincidências interpretadas como suspeitas e, claro, a inevitável exposição pública. Tudo isso convenientemente encaixado num momento político sensível, onde o nome de Luiz Inácio Lula da Silva volta ao centro do tabuleiro eleitoral.
Coincidência?
No Brasil, coincidências costumam ter lado.
E timing.
Enquanto isso, a pergunta que insiste em não calar segue sendo ignorada com a elegância de sempre: como informações sigilosas da Polícia Federal continuam chegando, com precisão cirúrgica, às redações de sempre? Quem vaza? Por que vaza? E, mais importante: por que nunca acontece absolutamente nada com quem vaza?
Silêncio.
Um silêncio ensurdecedor.
Porque, no fundo, o problema nunca foi apenas o conteúdo das reportagens. O problema é o sistema que as sustenta — um sistema onde certos atores têm licença tácita para influenciar o jogo político, sem jamais prestar contas à sociedade.
E quando isso acontece em plena antesala de uma disputa eleitoral, onde nomes como Flávio Bolsonaro orbitam como adversários diretos, o que temos não é apenas jornalismo.
É estratégia.
É narrativa.
É poder.
Mas um poder curioso. Um poder que nunca erra — apenas “interpreta”. Um poder que nunca manipula — apenas “informa”. Um poder que nunca responde — apenas segue.
Sempre segue.
Até porque, no Brasil, há instituições que investigam, há instituições que julgam… e há aquelas que simplesmente contam a história do jeito que querem.
E seguem contando.
Sem interrupções.
Sem consequências.
(Padre Carlos)





