
Padre Carlos
Há crimes que não começam no instante do disparo, do golpe ou da asfixia. Eles começam muito antes — nas palavras, nas ideias, nas pequenas imposições diárias que vão transformando o amor em território de controle.
O caso do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e da soldado Gisele Alves Santana não é apenas mais um episódio brutal de feminicídio no Brasil. Ele é, antes de tudo, a radiografia de uma mentalidade perigosa que cresce silenciosamente: a ideia de que amar é possuir, de que cuidar é vigiar, de que proteger é dominar.
As mensagens reveladas pela investigação não deixam margem para dúvida. Não se trata de um rompante isolado, de um momento de descontrole. Trata-se de um padrão. Um projeto de poder dentro da intimidade. Um roteiro clássico de abuso psicológico, onde o homem se autoproclama “macho alfa” e passa a exigir submissão, restringir liberdades, controlar roupas, amizades, comportamentos — como se estivesse não diante de uma companheira, mas de uma propriedade.
Esse tipo de relação não nasce violenta. Ela se constrói. Primeiro vem o discurso. Depois, o controle. Em seguida, o isolamento. E, por fim, a violência.
O mais perturbador é perceber como esse comportamento encontra respaldo em uma retórica contemporânea travestida de filosofia: a chamada cultura “red pill”. Um conjunto de ideias que, sob o pretexto de “despertar masculino”, resgata e legitima uma visão arcaica da mulher — submissa, obediente, confinada ao espaço doméstico.
Quando essa ideologia encontra terreno fértil em personalidades autoritárias, o resultado pode ser devastador.
E aqui reside uma das maiores contradições deste caso: o autor não era um cidadão comum à margem da lei. Era um agente do Estado. Um oficial da Polícia Militar. Alguém treinado para proteger vidas, garantir direitos, preservar a ordem.
Mas o que acontece quando o guardião da lei internaliza uma lógica de dominação?
A resposta está diante de nós — cruel, irreversível e profundamente simbólica.
O feminicídio de Gisele não é apenas a morte de uma mulher. É também o colapso de uma ilusão: a de que instituições, por si só, são capazes de conter indivíduos que carregam dentro de si a semente da violência.
O Ministério Público aponta que o crime foi motivado por ciúme e possessividade. Mas essas palavras, por si só, são insuficientes. Elas suavizam o que, na verdade, é uma engrenagem muito mais complexa: o machismo estrutural aliado ao desejo de controle absoluto.
Não foi ciúme. Foi domínio.
Não foi impulso. Foi construção.
Não foi amor. Foi poder.
E como todo poder levado ao extremo, ele precisou eliminar aquilo que não podia controlar.
Outro elemento que causa indignação é a tentativa de simulação de suicídio. Um gesto que revela não apenas frieza, mas cálculo. A tentativa de apagar a verdade, de manipular a narrativa, de escapar da responsabilidade.
Mas desta vez, as mensagens falaram.
Elas expuseram o que muitas vezes permanece invisível: o abuso que não deixa marcas imediatas, mas corrói a dignidade, a autonomia e, em muitos casos, a própria vida.
O Brasil convive há anos com números alarmantes de violência contra a mulher. O feminicídio não é exceção — é padrão. E enquanto continuarmos tratando esses casos como episódios isolados, estaremos ignorando o sistema que os sustenta.
É preciso dizer com todas as letras: ideias matam.
Discursos que romantizam a submissão feminina, que exaltam o controle masculino, que tratam a mulher como extensão do homem — não são inofensivos. Eles são o primeiro passo para a tragédia.
A justiça agora seguirá seu curso. O acusado está preso, responderá ao Tribunal do Júri e pode enfrentar uma pena severa. Mas nenhuma sentença será capaz de devolver a vida de Gisele.
O que resta, então, é a reflexão.
Quantas relações ainda reproduzem, em silêncio, esse mesmo modelo de dominação?
Quantos sinais são ignorados em nome de uma falsa ideia de amor?
E quantas tragédias ainda precisarão acontecer para que a sociedade compreenda que o verdadeiro perigo não está apenas no ato final, mas na mentalidade que o antecede?
O feminicídio não começa com a morte.
Ele começa quando uma mulher deixa de ser vista como sujeito e passa a ser tratada como posse.
E enquanto essa lógica não for definitivamente enfrentada, continuaremos enterrando vítimas — e naturalizando culpados.




