Política e Resenha

E agora, você?

 

 

E agora, você?

 

Você que chegou até aqui carregando dias inteiros nas costas,
como quem carrega sacolas invisíveis de lembranças,
de silêncios não ditos,
de músicas que tocam por dentro sem pedir licença.

E agora?

A festa acabou — ou talvez nunca tenha começado direito.
As luzes diminuíram, os aplausos se dispersaram no vento,
e ficou esse eco…
esse eco manso, quase tímido, que insiste em permanecer.

Há um homem — havia um homem —
que entendia desse eco.

Paulo Diniz não cantava apenas canções.
Ele sussurrava verdades que a gente evitava encarar.
Transformava ausência em melodia,
e a saudade — essa ferida elegante — em companhia.

E agora, você?

Talvez não soubesse o nome dele.
Talvez tenha ouvido, distraído, em algum rádio antigo,
uma canção que parecia falar diretamente com você —
sem nunca ter te conhecido.

Pingos de Amor” não começa.
Ela acontece.
Como a chuva fina que não pede autorização ao céu.
Como a lágrima que não consulta o orgulho antes de cair.

Pingos.
De amor.
De tempo.
De tudo aquilo que a gente sente, mas não sabe dizer.

E ele soube.

Soube como poucos.

Quando ousou dar voz ao silêncio de “E agora, José?”,
de Carlos Drummond de Andrade,
não foi apenas coragem — foi encontro.

Como se dois mundos, até então paralelos,
decidissem, por um instante raro, se tocar.

E tocaram.

E agora, José?

E agora, você?

A rua continua.
O dia continua.
As contas chegam.
As notícias pesam.
O tempo — esse velho indiferente — não espera ninguém.

Mas há algo que resiste.

Sempre há.

É a canção que fica depois que o rádio é desligado.
É a memória que insiste depois que a presença se vai.
É o verso que se infiltra no pensamento
quando tudo ao redor parece barulho demais.

Paulo Diniz partiu — dizem.
Mas isso é linguagem de quem mede o mundo com relógios.

Artista não parte.
Se espalha.

Fica no canto da sala,
na curva de uma lembrança,
no susto bom de reconhecer uma melodia antiga
em um dia qualquer.

Fica em você — agora.

E talvez seja esse o nosso desencontro mais bonito com a arte:
a gente acha que está ouvindo uma música,
quando, na verdade, está sendo ouvido por ela.

E agora?

Agora é com você.

Se a noite esfriar demais,
se o silêncio pesar mais do que deveria,
se o mundo parecer grande demais para caber no peito —

escute.

Não com os ouvidos.
Com o que ainda pulsa.

Porque, no fundo,
entre o fim de uma canção e o começo de outra,

é ali que a gente se encontra.

Padre Carlos