
Havana, março — ou talvez apenas um lugar do mundo onde o tempo se recusa a ajoelhar.
Fidel,
Escrevo como quem atravessa um mar que não aparece nos mapas. Um mar feito de notícias truncadas, silêncios convenientes e narrativas que tentam reduzir um povo inteiro a um rodapé geopolítico. Escrevo porque, mesmo ausente, teu nome ainda ecoa como um trovão baixo na memória da América Latina — desses que não assustam, mas lembram que o céu nunca esteve totalmente limpo.
A delegação brasileira que chegou a Havana na noite passada trouxe pouco na bagagem — algumas roupas, palavras, gestos —, mas trouxe muito no invisível: trouxe o peso simbólico da solidariedade. Vieram participar do comboio no Extra América, vieram estar presentes, vieram testemunhar. E há algo profundamente humano nisso: quando o mundo fecha portas, o simples ato de bater nelas já é uma forma de resistência.
O dia 21 de março se anuncia não como uma data, mas como um pulso. Um desses momentos em que a história respira mais fundo.
Cuba, Fidel, segue sendo uma ilha — não apenas geográfica, mas moral. Cercada não por água, mas por decisões políticas que se acumulam como muralhas invisíveis. Fala-se em embargo, em sanções, em pressões diplomáticas. Mas, na prática, o que se vê é algo mais denso, mais silencioso e, por isso mesmo, mais cruel: um tipo de asfixia econômica que não faz barulho de bombas, mas corrói com a paciência de uma ferrugem.
E aqui, é preciso nomear: a política externa associada a Donald Trump e reforçada por figuras como Marco Rubio reativou e intensificou mecanismos de pressão que muitos consideram, no campo moral, uma forma de punição coletiva. Um cerco que não distingue governo de povo — e é justamente aí que a ferida se aprofunda.
Mas há uma pergunta que insiste, quase incômoda na sua simplicidade:
que ameaça real representa Cuba?
Não possui ogivas apontadas para o norte. Não comanda mercados globais. Não dita regras ao sistema financeiro internacional. Sua “ameaça”, ao que parece, reside em outra dimensão — mais simbólica, mais perigosa: a de ter ousado existir fora da lógica dominante, a de ter tentado construir uma sociedade com valores que desafiam o roteiro hegemônico.
E isso, Fidel, a história mostra, costuma ser imperdoável.
Ainda assim, o que impressiona não é o cerco — mas a resistência. Há mais de seis décadas, Cuba se equilibra entre a escassez e a dignidade, entre a limitação material e uma espécie de teimosia coletiva que beira o épico. Não se trata de romantizar a dor — seria desonesto. Trata-se de reconhecer que há algo ali que não se dobra facilmente: uma ideia de soberania que não cabe nos manuais.
A delegação brasileira — composta por homens e mulheres comuns — talvez não mude o curso da geopolítica. Não derrubará sanções nem reescreverá tratados. Mas carrega algo que, em tempos de cinismo global, se torna raro: a disposição de olhar nos olhos.
E isso, por si só, já é um gesto político.
Porque a solidariedade internacional não é apenas um conceito abstrato; ela é feita de presenças concretas. De corpos que atravessam fronteiras. De vozes que se recusam a aceitar o silêncio como norma. Em tempos de bloqueio econômico, cada gesto de aproximação é também um ato de ruptura.
Há quem diga que Cuba é um símbolo ultrapassado. Que o mundo mudou. Que as utopias envelheceram.
Talvez.
Mas há símbolos que não envelhecem — apenas se transformam em espelhos. E Cuba, com todas as suas contradições, continua sendo um desses espelhos incômodos: reflete não apenas suas próprias falhas, mas também as hipocrisias de um sistema que pune com severidade aquilo que não consegue controlar.
Fidel, escrever-te hoje é menos sobre o passado e mais sobre o presente que insiste em dialogar contigo. É reconhecer que, para além das disputas ideológicas, existe uma questão humana incontornável: o direito de um povo existir sem ser estrangulado.
O comboio que percorre Havana neste 21 de março não é apenas um ato político — é um lembrete. Um lembrete de que, mesmo em tempos de isolamento, há pontes sendo construídas. Invisíveis, frágeis talvez — mas reais.
E, no fim, é disso que a história é feita: não apenas de grandes decisões, mas de pequenos gestos que se recusam a desaparecer.
Se há uma conclusão possível, ela não vem em forma de sentença, mas de convite:
Que se olhe Cuba não apenas como um problema a ser resolvido, mas como uma pergunta a ser enfrentada.
Que se discuta embargo, bloqueio econômico, soberania e direitos humanos com a mesma honestidade com que se exige deles.
E que a solidariedade não seja episódica, mas constante — não um evento, mas uma postura.
Porque, no fundo, Fidel, o que está em jogo não é apenas o destino de uma ilha.
É o tipo de mundo que ainda estamos dispostos a permitir.
E isso — como a maré — nunca é completamente silencioso.
Padre Carlos




