Política e Resenha

Só Deus Sabe

 


 

Só Deus sabe — e eu, que carrego essa pedra debaixo das costelas — o quanto a tua ausência tem peso de mar.

Não o mar que faz barulho. O outro. O que fica quieto e afunda tudo por dentro.


Éramos jovens, e a juventude não pede licença pra partir. Vai embora como vento entre os dedos, como nome que a memória teima em guardar mas a vida teima em afastar.

Faz tanto tempo que não ouço tua voz — e mesmo assim, sei exatamente como ela soa.

Faz tanto tempo que não vejo teu sorriso — e mesmo assim, ele ainda acende alguma coisa que deveria estar apagada.


Eras uma menina. Hoje és uma senhora, dizem os anos. Mas os anos mentem pra quem ama com memória.

Porque eu ainda te procuro — todo dia, como quem procura uma chave que já não abre nenhuma porta deste mundo, mas abre tudo aqui dentro.


E eu te encontro.

Encontro a menina de olhos que não sabiam do que a vida era capaz. Encontro o riso fácil, o tempo devagar, a manhã que não tinha pressa.

Mas ela não existe mais — não lá fora, não no espelho, não nos caminhos que o mundo guarda.

Ela existe aqui. Aqui dentro. Num lugar que não tem endereço, que ninguém visita, que só Deus conhece e só a dor habita.


E está tudo bem.

Guardar alguém assim — inteiro, vivo, aceso — dentro do peito não é loucura.

É o único jeito que o amor encontrou de não te perder de vez.


— Padre Carlos