Cultura & Identidade Nacional
O Menestrel das Caatingas: Arquitetura Estética, Linguagem Arcaica e a Epopeia do Sertão Profundo na Obra de Elomar Figueira Mello
Um dos fenômenos mais singulares da cultura brasileira contemporânea, Elomar situa-se na intersecção rara entre a tradição oral milenar, a sofisticação erudita europeia e a arquitetura de uma identidade regional que resiste à homogeneização da modernidade.
PC
Padre Carlos
Colunista | Política e Resenha
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Vitória da Conquista, Bahia
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Artigo de Opinião
A
trajetória artística e intelectual de Elomar Figueira Mello representa um dos fenômenos mais singulares da cultura brasileira contemporânea, situando-se em uma zona de intersecção complexa entre a tradição oral milenar, a sofisticação da música erudita europeia e a arquitetura de uma identidade regional que resiste à homogeneização da modernidade. Nascido em 21 de dezembro de 1937, na Fazenda Boa Vista, em Vitória da Conquista, Bahia, Elomar não se limita à função de cantor ou compositor — ele assume a persona do menestrel, um cavaleiro de outras eras que utiliza o violão e a palavra como instrumentos de preservação de um “Sertão Profundo”.
Sua obra é um monumento à resistência cultural, onde o sofrimento do caatingueiro é transmutado em uma estética de nobreza e transcendência, desafiando as classificações tradicionais do mercado fonográfico e da academia. O percurso de Elomar é marcado por uma dualidade fundamental: a solidez da formação acadêmica em arquitetura e a fluidez da tradição dos cantadores nordestinos. Essa simbiose permitiu-lhe projetar um universo artístico onde a estrutura das óperas e antífonas dialoga com a rudeza da vida pastoril.
Gênese e Formação: O Solo Fértil da Fazenda Boa Vista
A compreensão da obra de Elomar exige o retorno às suas raízes geográficas e familiares, que funcionam como o alicerce de todo o seu edifício estético. O nascimento na Fazenda Boa Vista, situada na Zona da Mata do Itambé, ocorreu em um contexto de grandes secas cíclicas, onde a casa de seus avós servia de pouso para levas de retirantes flagelados. Essa visão primordial da miséria humana, contrastada com a dignidade daqueles que “estradeavam” o sertão, marcou indelevelmente a sensibilidade do artista.
Filho de Ernesto Santos Mello, um tanger de boiadas, e Eurides Gusmão Figueira Mello, de ascendência cristã-nova, Elomar cresceu em um ambiente onde o silêncio da caatinga era preenchido por influências musicais contrastantes. A infância foi permeada pela música eclesiástica batista, herança de sua mãe, que introduziu noções de harmonia e solenidade em sua percepção sonora. O aprendizado do violão, realizado muitas vezes às escondidas devido ao preconceito da época, permitiu que desenvolvesse uma técnica que já aos onze anos se manifestava em composições autorais.
Cronologia da Formação
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1937 | Nascimento em 21 de dezembro, na Fazenda Boa Vista, Bahia. |
| 1940 | Mudança para Vitória da Conquista por questões de saúde. |
| 1944 | Início do aprendizado de violão, enfrentando resistência familiar. |
| 1954 | Mudança para Salvador para cursar o ensino científico. |
| 1956 | Interrupção dos estudos para servir ao Exército em Vitória da Conquista. |
| 1959–64 | Graduação em Arquitetura pela UFBA. |
| 1964 | Retorno definitivo ao sertão para iniciar a criação de sua obra. |
A Linguagem Sertâneza: Arcaísmos e Resistência Cultural
Um dos pilares da originalidade de Elomar é o desenvolvimento de uma linguagem própria, que ele denomina dialeto “sertanezo” ou “sertânico”. Esta não é uma mera reprodução da fala rural, mas uma construção literária e filológica que resgata elementos do português arcaico preservados pelo isolamento geográfico do sertão. Elomar utiliza arcaísmos, neologismos e uma grafia pretensamente fonética para registrar a oralidade de um povo que ele considera guardião de uma pureza linguística perdida nos centros urbanos.
“Ao escrever ‘iscapô’ em vez de escapou ou ‘istralô’ para estalou, o compositor busca uma representação icônica da sonoridade do sertão — onde a queda do vibrante final e a monotongação de ditongos são marcas de identidade e resistência.”
A análise filológica de suas letras revela fenômenos como a manutenção da nasalidade em formas arcaicas — como “lũa” para lua — e a conservação de termos derivados do castelhano ou do português medieval, como “intonce”. Elomar adota uma postura “pancrônica” em relação à língua, exercitando conhecimentos fônicos e semânticos que transformam suas canções em objetos de estudo acadêmico em literatura e linguística.
Fenômenos Linguísticos no Dialeto Sertanezo
| Fenômeno | Exemplos | Implicação Cultural |
|---|---|---|
| Monotongação | cavêra, oço, iscapô | Fonética arcaica como identidade. |
| Neutralização de Vogais | pru, cum, qui, isperá | Aproximação da escrita à oralidade regional. |
| Queda do /r/ final | dá, passá, lugá, dô | Tonicidade e ritmo do canto. |
| Redução do Gerúndio | vino, prissiguino | Agilidade narrativa dos contadores de causos. |
| Arcaísmos Lexicais | lũa, intonce, in | Conexão medieval com a península ibérica. |
O Sertão Profundo: Metafísica da Seca e da Fé
A representação da vida do caatingueiro na obra de Elomar afasta-se do realismo social convencional para adentrar o terreno do mito e da mística. O artista distingue dois sertões: o “sertão-de-fora”, geográfico e político, marcado pela negligência estatal e pela fome, e o “sertão profundo” ou “sertão-de-dentro”, um espaço onírico e transcendente onde residem a honra, a fé e a ancestralidade.
A “vida sofrida” é retratada como uma travessia heroica, onde o flagelo da seca funciona como um elemento de purificação espiritual e a resiliência é personificada em símbolos como o umbuzeiro — árvore que armazena água em suas raízes e resiste ao sol inclemente. Na canção “Campo Branco”, Elomar utiliza a paisagem calcinada para construir uma cenografia de desolação que serve de pano de fundo para o drama existencial do sertanejo.
A religiosidade elomariana é um amálgama de influências protestantes e católicas populares, onde o “Rei da Glória” e o “Anjo da Morte” caminham lado a lado com o vaqueiro. O caatingueiro é, portanto, a figura de um peregrino em uma terra de “vai-num-torna”, onde a morte é uma vizinha constante e a esperança é uma “centelha” que ilumina a escuridão da miséria.
Temas Centrais e Motivos Iconográficos
| Símbolo | Significado na Obra | Relevância Contextual |
|---|---|---|
| Umbuzeiro | Símbolo de resistência e força interior. | Árvore sagrada que provê sustento na seca. |
| Retirada | Tragédia do êxodo rural e perda de identidade. | O desraizamento causado pela necessidade. |
| Pátria Sertão | O sertão como unidade autônoma e autêntica. | Rejeição à hegemonia do litoral e da modernidade. |
| Honra / Palavra | Código moral que rege as relações sociais. | Valorização do ethos tradicional. |
| O Menestrel | O artista como guardião da memória coletiva. | Conexão entre o presente e o passado medieval. |
Arquitetura Musical: A Fusão entre o Barroco e a Cantoria
A técnica violonística de Elomar é a base sobre a qual se ergue sua complexa estrutura composicional. Autodidatismo e formação acadêmica em violão clássico convergem para criar um estilo que eleva o ponteado da viola caipira ao rigor contrapontístico do barroco. Elomar incorpora traços do modalismo renascentista — visíveis em suas referências às fantasias para vihuela de Luys de Milán — e elementos do flamenco espanhol, como o uso do capotraste e a cadência andaluza. O resultado é uma sonoridade híbrida que ele denomina “música de fronteira”.
Em obras como “O Violeiro”, o ritornello construído sobre o modo dórico utiliza o “pinicado de Sansão” — uma alternância rítmica entre o indicador e o polegar que emula o som metálico da viola dos cantadores. A grandiosidade da obra operística de Elomar é exemplificada pelo “Auto da Catingueira”, selado em 1969 e gravado inteiramente na sala de sua fazenda. Esta obra-prima narra a tragédia amorosa no sertão com a densidade de uma ópera de Verdi, utilizando vozes que emulam o canto nasalado dos violeiros.
Dimensões da Obra Musical
| Categoria | Obras Principais | Características |
|---|---|---|
| Cancioneiro | O Violeiro, Cantiga de Amigo, Arrumação | Narrativa épica e lírica do sertão. |
| Ópera | Auto da Catingueira, A Carta, Faviela | Libretos dialetais e estrutura dramática clássica. |
| Antífonas | Antiphonaria Sertani (11 peças) | Fusão de música sacra com temática sertaneja. |
| Instrumental | Fantasias, Galopes Estradeiros, Concertos | Virtuosismo violonístico e orquestração autoral. |
O Projeto “Cantoria”: O Encontro de Trovadores
Embora Elomar seja um artista de vida reclusa, sua participação no projeto “Cantoria”, ao lado de Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo, foi um divisor de águas na música popular brasileira na década de 1980. Este encontro de “menestréis” e “cantadores” conseguiu elevar a cultura nordestina a um patamar de reconhecimento nacional sem precedentes, registrando em discos ao vivo — gravados em sistema digital, uma inovação na época — a harmonia entre distintas formas de compor e tocar.
O “Cantoria” não foi apenas um show, mas um manifesto estético. Através dele, Elomar e seus parceiros desafiaram o “monstro do capitalismo no mercado musical” e as “contaminações” do rock e do country que começavam a desfigurar a música sertaneja tradicional. A colaboração mútua permitiu que a sofisticação erudita de Elomar se fundisse à verve ecológica de Vital Farias e à rítmica contagiante de Geraldo Azevedo e Xangai, criando um amálgama que influenciou gerações de músicos, de Caetano Veloso a Renato Teixeira.
A Casa dos Carneiros e a Institucionalização da Memória
A residência de Elomar, a Fazenda Casa dos Carneiros em Vitória da Conquista, transcendeu a função de morada para tornar-se um centro de resistência cultural. Fundada como fundação cultural em 2007, a Casa dos Carneiros abriga o Teatro Domus Operae e os “Arquivos Implacáveis” — um edifício projetado pelo próprio Elomar que simula um curral de bodes para abrigar seu acervo de manuscritos, partituras e fitas cassete.
A organização desse acervo é um trabalho de “garimpo” realizado por especialistas, uma vez que o processo criativo de Elomar é fragmentado: ele escreve em pedaços de papel, cadernos e notas espalhadas pelo tempo e pelo espaço. A catalogação de milhares de documentos revelou obras perdidas — como trechos da ópera “O Retirante” — e consolidou a importância de preservar um patrimônio que reflete a “arte puramente brasileira”. A Casa dos Carneiros funciona, assim, como uma “universidade sertaneza”, onde a pesquisa sobre o dialeto, a música e a paisagem convergem para garantir a perenidade do legado elomariano.
“Ao longo de sua carreira, Elomar demonstrou que a erudição não é inimiga da tradição, mas sua aliada na construção de uma identidade nacional profunda. O menestrel das caatingas permanece como uma figura quixotesca — substituindo a capa pelo gibão, mas mantendo firme a espada de sua integridade artística em defesa de um sertão que, nas suas cordas, torna-se eterno.”
Conclusão: O Legado do Menestrel e a Eternidade do Sertão
A obra de Elomar Figueira Mello é um testemunho da potência da cultura brasileira quando esta se recusa a ser meramente decorativa ou comercial. Através de sua fusão magistral entre o popular e o erudito, ele não apenas retratou a “vida sofrida” do caatingueiro, mas conferiu a esse sofrimento uma dimensão épica e sagrada. Sua música e sua poesia são portais para uma realidade espaço-temporal onde os valores ancestrais de honra e fé ainda sustentam o homem frente à aridez do destino.
Sua técnica de violão, sua linguagem dialetal e sua visão arquitetônica da arte configuram uma obra que é, ao mesmo tempo, regional e universal. O caatingueiro de Elomar é uma figura política no sentido mais profundo: alguém que, ao cantar sua aldeia, afirma a universalidade de sua dor e de sua beleza. Nas suas cordas, o sertão profundo torna-se eterno — e o Brasil, um pouco mais inteiro.




