Opinião · Memória · Cultura
Caderno de Memória e Palavra Escrita
Bahia, 2025
As Cartas de Amor
Ridículas e Maravilhosas
Uma busca por quem ainda tenha a coragem e a paciência de se corresponder à moda antiga — com papel, envelope, selo e a gloriosa angústia da espera.
Padre Carlos
Articulista · Vitória da Conquista, Bahia
Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
O amor é assim: exagerado, ingênuo, transborda da gente sem que possamos compreendê-lo, domá-lo ou explicá-lo. Fernando Pessoa sabia disso. E eu, que gosto das cartas — sejam elas de amor ou não —, acredito que, no fundo, quase todas as cartas são de amor. Carta é sempre um gesto de alcançar o outro através do tempo e do espaço. É a prova de que alguém existiu, sentiu e precisou dizer.
Mas as cartas dizem algo a mais do que sentimentos. Elas são documentos históricos. Testemunhos. Relíquias. Falam sobre um período vivido, sobre um mundo que não existe mais, sobre formas de comunicação que a velocidade digital engoliu sem cerimônia. Por isso, neste século de mensagens instantâneas e memórias descartáveis, proponho uma busca talvez absurda e necessária: procura-se alguém — em pleno 2025 — que tenha a coragem e a paciência de se corresponder por cartas, à moda antiga.
Não para trocar e-mails, não para áudios instantâneos ou mensagens que somem antes mesmo de serem relidas. Quero enviar e receber cartas feitas à mão, depositadas num envelope de papel e postadas nas agências dos Correios. Pode ser com aquele selo simples. Nada de carta registrada. Quero correr o risco de sentir a angústia de uma carta extraviada. Desejo imaginar o percurso que ela faz até chegar. Pretendo experimentar novamente a aflição da espera — a ansiedade dos dias e semanas sem notícias — e finalmente ser recompensado com a chegada inesperada do carteiro.
Vivemos numa era em que a comunicação é muito imediata, muito instantânea e, às vezes, com assustadoramente pouco significado. Apaga-se, esquece-se, deixa-se pra lá o que foi dito há pouco. As tecnologias digitais trouxeram a facilidade de nos comunicarmos muito — e de nos dizermos cada vez menos. As cartas, ao contrário, eram um tipo de comunicação lento, trabalhado, quase artesanal. Entre cidades distantes, uma carta podia demorar quinze, vinte dias para chegar e o mesmo tempo para voltar. Correspondia-se, quando muito, uma vez por mês.
Diante dessa distância e dessa espera, cada carta tornava-se uma relíquia. Era lida, relida, cheirada, decorada de cor — e quando todo mundo já sabia o que estava escrito ali, era cuidadosamente guardada no fundo de uma mala. Por um motivo simples e doloroso: não se sabia quando viriam novas notícias daquela pessoa.
O que os arquivos guardam
É nos arquivos históricos que encontramos a prova mais comovente de que as cartas são muito mais do que papel. São pulsos. São vozes que recusaram o silêncio.
Em julho de 1812, um homem de quarenta e um anos acordou ao amanhecer num hotel em Teplitz, na Boêmia, e começou a escrever uma carta que nunca seria enviada. Nunca foi enviada porque, até hoje, ninguém sabe ao certo a quem ela era destinada. O homem era Ludwig van Beethoven. A carta ficaria conhecida pela posteridade como a carta da Amada Imortal — Unsterbliche Geliebte — e foi encontrada na gaveta secreta de sua escrivaninha somente após sua morte, em 1827, dobrada com tanto cuidado quanto uma oração.
“Meu anjo, meu tudo, meu eu — por que essa dor profunda onde a necessidade fala? Só através da tranquilidade podemos atingir nosso objetivo de viver juntos. Acaso o nosso amor não é um edifício celestial, tão firme quanto o firmamento?…”
“Posso viver somente inteiramente contigo ou de jeito nenhum — sim, resolvi vagar distante até que possa voar para seus braços e dizer que encontrei minha pátria em você, e envolta em seus braços deixar que minha alma seja levada ao reino dos espíritos…”
A carta nunca chegou. O destinatário nunca a leu. E ainda assim ela sobreviveu a dois séculos, está traduzida em dezenas de idiomas e faz chorar estranhos que nunca souberam o nome da mulher amada. Isso é o que uma carta pode fazer: transformar o privado em universal, o efêmero em eterno.
Mas nem todas as cartas falam de amor romântico. Algumas falam de um amor maior — o amor pela vida diante da morte certa. Durante a Segunda Guerra Mundial, soldados de todos os países escreviam cartas nos momentos que antecediam batalhas. Cartas que podiam ser as últimas. Uma das mais célebres é a do soldado americano Sullivan Ballou, escrita em 1861, às vésperas da Batalha de Bull Run, durante a Guerra Civil. Ele tinha trinta e dois anos:
“Minha querida Sarah, se eu não retornar e Deus quiser que eu pereça, meu amor por você não pode morrer com o meu corpo. Parece-me que eu deveria continuar amando você após a morte, e se houver outra vida, minha melhor e mais alta esperança é que você seja minha ainda. Mas se não for assim, não temo, pois dormirei placidamente na terra, acalentado pelas memórias de você.”
Ballou morreu oito dias depois na batalha. Sarah nunca se casou novamente.
Sarah nunca se casou novamente. Guardou a carta por quarenta e oito anos, até sua própria morte. Não precisava relê-la: sabia de cor cada palavra, como quem sabe uma oração.
Aqui no Brasil, nas terras da Bahia que habitamos, a cultura epistolar também deixou registros inesquecíveis. Castro Alves, o Poeta dos Escravos, nascido em Curralinho — hoje Castro Alves —, a poucos quilômetros de onde muitos de nós crescemos, escrevia cartas com a mesma intensidade com que escrevia versos. Numa carta à atriz portuguesa Eugênia Câmara, por quem era apaixonado, o poeta revelou o que talvez seja a síntese mais honesta de todo escritor que já pegou numa pena:
“Escrevo-te porque não posso deixar de escrever. Há momentos em que a palavra escrita é a única forma de existir. Quando te vejo, emmudeco. Quando te escrevo, sou.”
Quando te vejo, emmudeco. Quando te escrevo, sou. É impossível ler isso e não sentir que há uma verdade ali que nenhuma mensagem de voz jamais vai alcançar. A escrita manual força uma presença que a fala, muitas vezes, dispensa. Quando você escreve à mão, você não pode apagar. Você risca, você recomeça, mas o traço fica. É o corpo inteiro que escreve — a pressão do dedo, a inclinação do pulso, a pressa ou a calma de cada letra.
Então insisto: procura-se alguém que escreva cartas. Não precisa ser Beethoven. Não precisa ser Castro Alves. Não precisa falar de amor — embora, no fundo, toda carta acabe sendo de amor por alguém, por algum tempo, por alguma forma de ver o mundo. Basta ter papel, caneta, envelope e a disposição rara de sentar, respirar fundo e dizer algo que valha o peso do correio.
O mundo acelerou demais. As palavras evaporam na mesma velocidade com que são digitadas. Mas há uma resistência silenciosa e bonita nas pessoas que ainda dobram um papel, lambem um envelope e confiam num carteiro. Há nelas algo de Beethoven acordando ao amanhecer para escrever à mulher que amava sem saber se a carta chegaria. Há nelas algo de Sullivan Ballou despedindo-se de Sarah com a certeza de que o amor era maior do que a batalha.
Há nelas algo de ridículo. E, como nos ensinou o velho Fernando Pessoa, é exatamente por isso que são tão maravilhosamente verdadeiras.




