Política e Resenha | Artigo de Opinião
O Tempo em Que a Infância
Tinha Cheiro de Terra Molhada
Uma memória de quem nasceu quando o mundo ainda cabia
dentro de um quintal e a felicidade era gratuita como o vento
Padre Carlos
Teólogo, escritor e articulista | Vitória da Conquista, BA

Há
uma hora do fim da tarde em que o céu de Bahia se tinge de laranja e ocre — um laranja que não tem nome nos dicionários modernos, mas que toda criança nascida nos anos cinquenta reconhece de imediato. Era o laranja do fim da brincadeira, o laranja que chamava para casa, o laranja que a mãe pintava no rosto quando aparecia na janela e gritava o nome da gente com aquela voz que não aceitava negociação. Cresci dentro desse laranja. E nunca mais deixei de procurá-lo.
Sou filho das décadas em que o Brasil ainda não tinha pressa. Nasci quando o rádio era o coração da casa, quando os adultos baixavam a voz para falar de política e as crianças aprendiam os segredos do mundo escutando atrás das portas. Uma geração que não tinha computador, não tinha celular, não tinha algoritmo — mas tinha algo que nenhuma tecnologia conseguiu reproduzir ainda: tempo. Tempo largo, generoso, quase infinito. O tempo de uma infância vivida do lado de fora.
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Não havia nada de errado com aquela pobreza criativa que nos foi imposta pelo acaso do nascimento. Havia, ao contrário, uma riqueza escondida nas pedras do quintal, nas formigas que carregávamos em procissão, nos caracóis que descobríamos depois da chuva.
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I. O quintal como universo
O quintal era o primeiro continente que a criança descobria. Não precisávamos de viagem, de excursão, de passeio organizado por adultos ansiosos. Bastava abrir o portão de madeira carcomida e o mundo inteiro se apresentava: a terra vermelha do Nordeste, quente e generosa, que marcava os joelhos de quem caía — e toda criança caia — com aquela tatuagem cor de ferrugem que as mães tentavam apagar na bacia de água fria. A terra era nossa página em branco.
As mangueiras eram castelos. As goiabeiras eram tesouros. As poças d’água depois da chuva eram oceanos inteiros onde navegávamos com folhas de bananeira que faziam as vezes de caravelas. Não havia app para isso. Não havia tutorial no YouTube. Havia apenas a imaginação pressionada pela realidade simples das coisas — e quanto mais simples a coisa, maior era a viagem que ela nos proporcionava.
Lembro com precisão quase fotográfica do cheiro da terra molhada depois do primeiro aguaceiro de novembro. Há um nome científico para isso — petrichor —, mas nós não precisávamos de nome. Precisávamos apenas abrir a janela e respirar fundo, e algo dentro do corpo respondia como quem reconhece a voz de um pai que voltou de viagem. Era o cheiro da vida recomeçando. Era o cheiro de ser criança.
II. As brincadeiras que a rua ensinava
Éramos crianças de rua — e digo isso com orgulho, com o peito estufado de memória. A rua não era perigo; era escola. Escola de negociação, de conflito resolvido no braço e no grito, de aliança e traição, de liderança conquistada na pedrada certa e na palavra justa. Nenhuma pedagogia moderna conseguiu reproduzir o currículo invisível que a rua oferecia de graça a quem tivesse coragem de entrar.
As brincadeiras que o tempo não apagou
Cada uma dessas brincadeiras era um tratado de filosofia prática. A pipa ensinava física, paciência, o vento como parceiro imprevisível. O pião ensinava equilíbrio e a aceitação de que tudo que gira, eventualmente para. A bolinha de gude ensinava geometria, estratégia e a amargura elegante de perder para quem jogava melhor. E o esconde-esconde — ah, o esconde-esconde — ensinava que o silêncio é uma habilidade, e que às vezes o melhor esconderijo é aquele em que você consegue ouvir o coração do outro sem que ele saiba onde você está.
III. O rádio, a voz e as histórias da noite
Quando o sol caía e a brincadeira acabava, a noite trazia o rádio. O rádio era o coração da casa — não a televisão que chegaria depois, com sua ditadura da imagem, mas o rádio: aquela caixa de madeira com a tela de tecido bege ou marrom que pulsava como um ser vivo, transmitindo vozes de lugares que a gente nunca veria, mas que se tornavam reais porque a imaginação completava o que o som não dizia.
Ouvíamos radionovelas com a mesma solenidade com que hoje as pessoas assistem a séries. A família inteira se reunia, e o silêncio era quase sagrado. Os personagens das novelas de rádio eram mais reais do que muita gente de carne e osso — porque eram feitos da nossa própria matéria: imaginação, desejo, medo e esperança. Cada voz que saía do rádio construía um rosto, e cada rosto construído era mais bonito, mais dramático e mais humano do que qualquer imagem projetada numa tela poderia ser.
“A televisão nos deu imagens prontas. O rádio nos deu algo infinitamente mais precioso: a liberdade de imaginar. E uma criança que imagina é uma criança que pensa, que cria, que existe plenamente.”
— Padre Carlos
IV. A comida, o cheiro e a memória do corpo
Marcel Proust descobriu a eternidade dentro de um biscoito mergulhado em chá. Nós, filhos do sertão e da caatinga, encontrávamos o tempo perdido na goiaba mordida no pé, ainda morna de sol; no caldo de cana que escorria pelo queixo; no milho assado na brasa que a avó preparava nas noites de São João. Não havia nada de gourmet naquilo. Era simplesmente a comida real, feita com mãos reais, para bocas que ainda não conheciam a palavra “opção”.
O feijão no fogão a lenha é uma experiência que nenhum restaurante consegue reproduzir — porque o ingrediente secreto não é o tempero, é o tempo. O feijão cozinhava devagar. A casa inteira impregnava daquele cheiro. E quando a mãe chamava para o almoço, não era apenas o estômago que respondia: era a alma inteira, convocada para um rito de comunhão simples e irrepetível.
E as frutas — santo Deus, as frutas! Não havia supermercado com seção climatizada para essas frutas. Havia o quintal, havia a vizinhança, havia a feira livre de sábado onde o mundo inteiro parecia caber nas bancas coloridas, e onde uma criança com alguns centavos no bolso se sentia o homem mais rico do universo. Jabuticaba tirada do pé com os dentes enegrecidos de tanto comer. Umbu que fazia a boca apertar de azedo e depois sorrir de doce. Manga rosa comida de bruços sobre a pia para não sujar a roupa — e sempre sujando a roupa do mesmo jeito.
V. Os adultos que eram gigantes
Há uma coisa que a minha geração conheceu e que as gerações seguintes foram privadas de forma gradual e irreversível: a presença física dos adultos. O pai que voltava do trabalho e se sentava na varanda para tomar o café às cinco da tarde. A mãe que bordava ou descascava feijão enquanto contava histórias. A avó que rezava em voz alta, tornando o sagrado parte do ar doméstico. O tio que sabia fazer qualquer coisa com as mãos e que nos ensinava não com palavras, mas com o exemplo silencioso do fazer.
Esses adultos eram gigantes — não porque fossem perfeitos, mas porque estavam presentes. A presença é o maior presente que um adulto pode dar a uma criança. E naquela época, sem distração eletrônica, sem a tirania das notificações, sem o roubo constante de atenção que o mundo digital opera hoje sobre cada um de nós, os adultos — mesmo os cansados, mesmo os pobres, mesmo os que carregavam o peso de um Brasil que ainda não encontrara seu caminho — conseguiam estar presentes de um jeito que hoje se tornou quase uma habilidade rara.
VI. A escola, o mestre e a autoridade que educava
A escola da minha infância tinha paredes caiadas de branco e janelas de madeira pintadas de azul. O quadro negro era realmente negro, e o giz fazia uma poeira branca que cobria as roupas do professor com uma auréola de conhecimento. Não havia computador, não havia projetor, não havia apresentação de slides. Havia o professor — o Mestre, como se dizia — e a sua voz era instrumento suficiente para abrir o mundo inteiro.
O professor naquela época tinha uma autoridade que não vinha do medo, mas do respeito genuíno que a comunidade depositava no saber. Ser professor era quase um sacerdócio — e digo isso sem ironia, eu que sou padre: havia na vocação docente uma dimensão de entrega e de missão que transcendia o salário e a carreira. O professor sabia coisas que você não sabia. E isso, numa sociedade que ainda não havia democratizado a informação nem banalizado o conhecimento, era algo sagrado.
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Aprendi a ler num cartilha. Aprendi a escrever numa lousa de ardósia com um giz que rangia. E aprendi a pensar com um professor que tinha menos livros do que qualquer estudante de hoje, mas que tinha aquilo que nenhum algoritmo ainda reproduziu: a paixão viva pelo ato de ensinar.
VII. A saudade honesta — com seus espinhos
Seria desonesto da minha parte pintar aquela infância apenas com cores quentes. Havia espinhos naquela rosa. Havia uma pobreza que machucava, uma desigualdade que separava mundos, uma violência doméstica que se escondia atrás dos muros floridos. Havia crianças que não tinham o que comer, que não iam à escola, que trabalhavam quando deveriam brincar. O Brasil dos anos cinquenta e sessenta era também um Brasil de injustiças estruturais que minha geração aprendeu a combater — e que ainda combatemos.
A saudade que sinto não é saudade da pobreza, nem da injustiça, nem da ditadura que viria nos anos sessenta varrer com brutalidade os sonhos de uma geração inteira. A saudade é de outra coisa — é daquilo que existia apesar disso tudo: a solidariedade espontânea entre vizinhos, a qualidade do silêncio, a beleza das coisas simples, a infância que tinha permissão de ser infância. É a saudade de um tempo em que as crianças podiam ser lentas, podiam se perder, podiam se machucar e aprender com o machucado.
VIII. O que devolvemos às crianças de hoje?
Toda vez que vejo uma criança com um tablet nas mãos num restaurante, em silêncio, enquanto os pais conversam (ou também olham os seus próprios telefones), sinto um aperto que não é moralismo: é luto. Luto pelo quintal que essa criança não terá. Pela chuva que não vai pegar. Pela amizade que não vai construir tijolo a tijolo, briga a briga, abraço a abraço, nos anos lentos e generosos da infância de rua.
Não proponho aqui um retorno impossível. O passado não volta, e seria insano querer que voltasse com sua carga inteira — inclusive com o que havia de cruel e injusto. Proponho outra coisa: que cada adulto que leu até aqui se pergunte o que pode devolver, agora, com os recursos de hoje, àquilo que a infância precisa de sempre. Tempo. Presença. Permissão para errar. Espaço para se perder. Terra para sujar as mãos. Silêncio para ouvir o próprio coração.
As gerações que nasceram nos cinquenta e sessenta não foram melhores do que as de hoje. Foram, simplesmente, crianças em um tempo diferente — um tempo que, com todos os seus defeitos, sabia que infância é coisa séria demais para ser apressada. Carregamos esse saber como uma responsabilidade, não como um privilégio. E nossa obrigação, agora que somos velhos o suficiente para entender o valor do que tivemos, é transmiti-lo — não com nostalgia paralisante, mas com a coragem de quem sabe que o futuro também tem direito à beleza do tempo lento.
Que o Deus que fez a chuva e a terra vermelha e o cheiro de petrichor e a voz da mãe chamando da janela — que Esse Deus nos conceda sabedoria suficiente para não roubar das crianças de hoje o que de mais precioso a infância pode oferecer: o direito sagrado e irrevogável de simplesmente ser criança.
Sobre o autor
Padre Carlos
Teólogo, escritor e articulista. Padre da Diocese de Vitória da Conquista, Bahia. Formado nas trincheiras intelectuais da Teologia da Libertação, escreve sobre política, cultura, fé e memória. Editor do blog Política e Resenha, onde a palavra é usada como instrumento de reflexão, combate e beleza.
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