Política e Resenha

Entre Hosanas e Silêncios: O Rei que Reina da Cruz – Padre Carlos

 

 

Há dias em que a fé se manifesta em festa. E há dias em que ela se revela no silêncio. O Domingo de Ramos é o encontro desses dois mundos: de um lado, a multidão que aclama; de outro, o Deus que se prepara para sofrer. Entre os ramos erguidos e os corações exaltados, já se desenha, de forma quase imperceptível, a sombra da cruz.

“Hosana! Bendito Aquele que vem em nome do Senhor!” — o grito ecoa pelas ruas de Jerusalém como uma explosão de esperança. Mas o que parecia coroação, na verdade, era anúncio. O Rei que ali entra não vem para ocupar tronos, mas para esvaziá-los. Não vem para dominar, mas para se entregar.

E aqui está o escândalo — e também a beleza — do cristianismo: a realeza de Cristo não se afirma pela força, mas pelo amor que se deixa ferir. Como nos recorda Bento XVI, é na cruz que se revela o amor gratuito e misericordioso de Deus. Ali, onde o mundo vê fracasso, Deus manifesta sua forma mais alta de poder: amar até o fim.

O problema é que nós ainda esperamos um Deus que nos poupe. Queremos um Messias que resolva, que intervenha, que imponha. Mas Cristo escolhe outro caminho. Ele não elimina a dor — Ele a atravessa. Não evita a cruz — Ele a assume. E, ao fazer isso, muda para sempre o significado do sofrimento humano.

Porque a cruz, quando carregada sem sentido, destrói. Mas quando carregada com Cristo, transforma.

É por isso que o Domingo de Ramos não é apenas memória — é espelho. Aquela procissão não ficou no passado. Ela continua. E nós estamos dentro dela.

Somos esse povo que caminha. Caminha entre aplausos e quedas, entre certezas e dúvidas, entre fé e cansaço. Há dias em que também gritamos “Hosana”. Há outros em que já não conseguimos sequer levantar os olhos. E é justamente nesses momentos que surge a tentação mais perigosa: acreditar que Deus nos abandonou.

Mas não abandonou.

Ele caminha conosco — mesmo quando não percebemos. Ele sustenta nossos passos — mesmo quando vacilam. Ele permanece — mesmo quando tudo em nós parece ruir.

Cristo não é apenas Aquele que passou pela dor. Ele é Aquele que entra na nossa dor. Que se faz presente no silêncio, na angústia, na solidão que ninguém vê. Sua caminhada é profundamente solidária. Ele não nos observa de longe. Ele nos precede, nos acompanha e nos sustenta.

A Procissão de Ramos, portanto, não é um gesto vazio. É uma profissão de fé em movimento. É a imagem de uma humanidade que não caminha sozinha. Somos parte de uma história maior. Há uma comunhão que nos envolve — dos patriarcas aos santos, dos mártires aos anônimos da fé — todos sustentados pela mesma promessa: a vida não termina na cruz.

Mas é preciso dizer com clareza: quando nos afastamos de Deus, a vida perde o eixo. Passamos a carregar pesos que não nos pertencem. Fardos que esmagam, porque não têm sentido. A cruz de Cristo, ao contrário, pode até pesar — mas não destrói. Porque ela é carregada na esperança da Ressurreição.

E aqui está o ponto decisivo: não basta admirar Cristo. É preciso segui-Lo.

A fé não é um sentimento superficial, nem uma tradição herdada sem consciência. A fé é decisão. É adesão concreta. É permitir que Cristo seja formado em nós, moldando nossos pensamentos, nossas escolhas, nossa maneira de existir.

Se Ele entrou em Jerusalém decidido a passar pela cruz, nós também somos chamados a essa coragem. Do contrário, viveremos cansados — não pela cruz redentora, mas pelos pesos inúteis que acumulamos ao fugir do essencial.

O Mistério da Morte e Ressurreição de Cristo não elimina nossas dores. Mas lhes dá sentido. Não remove nossas lutas. Mas nos dá força. Não responde todas as perguntas. Mas nos sustenta no caminho.

E quem fixa o olhar no Crucificado descobre algo que o mundo não consegue oferecer: um amor que não desiste. Um amor que permanece. Um amor que sustenta quando tudo o mais falha.

Neste início de Semana Santa, somos convidados a mais do que recordar. Somos chamados a escolher. Escolher permanecer. Escolher confiar. Escolher caminhar — mesmo quando o caminho passa pela cruz.

E quando faltar força, quando faltar esperança, quando faltar fé… que olhemos para aquela que não recuou.

A Virgem Maria permaneceu de pé, aos pés da cruz. Não porque não sofreu — mas porque acreditou. Sua presença silenciosa é a prova de que a fidelidade é possível, mesmo na dor.

Que ela nos sustente. Que ela nos ensine. Que ela nos conduza.

E que esta Semana Santa não seja apenas mais uma data no calendário — mas um reencontro com o sentido mais profundo da vida.

Uma boa e santa Semana Santa a todo o povo conquistense e baiano, que carrega no coração a fé em Nosso Senhor — mesmo quando o mundo insiste em dizer que não vale a pena.